Tecnologia

Computação quântica: o segredo por trás da “geladeira” da IBM e a corrida de 2028…

Computador quântico IBM com geladeira de diluição para resfriar qubits supercondutores
A "geladeira" de diluição da IBM mantém qubits a temperaturas próximas ao zero absoluto para computação quântica.

A computação quântica promete resolver em minutos problemas que levariam milênios aos supercomputadores atuais, mas a tecnologia continua presa a um obstáculo físico brutal: a instabilidade extrema das partículas subatômicas. Enquanto gigantes como IBM e Microsoft correm para domar esse caos, o uso comercial em larga escala segue sendo uma aposta para a próxima década.

Diferente dos bits tradicionais — que são apenas 0 ou 1 —, os qubits operam em superposição, assumindo ambos os estados simultaneamente. Essa capacidade de processar combinações exponenciais é o “santo graal” da computação, mas exige um ambiente controlado que beira a ficção científica.

O desafio do zero absoluto

Para manter a coerência quântica, os processadores da IBM precisam operar a 273 graus Celsius negativos — o zero absoluto. Qualquer vibração, variação térmica ou ruído eletromagnético colapsa o estado quântico, gerando erros em cascata. É por isso que, hoje, essas máquinas ocupam salas inteiras de refrigeração complexa, longe de qualquer aplicação prática fora de laboratórios.

A solução da big tech para escalar isso tem nome: Modular Quantum Cryogenic. Batizada internamente de “geladeira quântica”, a nova arquitetura promete interconectar múltiplos chips quânticos e clássicos dentro de um único sistema criogênico. É a base técnica para o projeto Quantum Starling, a ambição da IBM de entregar o primeiro supercomputador fault tolerant (tolerante a falhas).

Átomos neutros: a aposta silenciosa da Microsoft e startups

Enquanto a IBM foca em qubits supercondutores, a Microsoft abriu uma frente distinta em parceria com a Atom Computing. O projeto Magne — financiado pela Fundação Novo Nordisk e pelo fundo soberano dinamarquês — utiliza átomos neutros como unidades de informação. Sem carga elétrica, eles são naturalmente mais imunes a ruídos externos, o que facilita a correção de erros.

A meta é ousada: colocar um computador quântico funcional no mercado já no próximo ano. Paralelamente, a Microsoft firmou acordo com a DARPA, a agência de pesquisa do Pentágono, sinalizando o interesse estratégico militar na tecnologia.

  • QuEra (Boston): Spin-off de Harvard/MIT, mira máquina fault tolerant até 2028 usando átomos neutros.
  • CEO Andy Ory: Classifica o setor como “prestes a decolar”.
  • Diferencial: Correção de erros nativa via arquitetura de átomos neutros.

Não é para o seu bolso (nem para o seu laptop)

Esqueça a democratização vista na IA generativa. Segundo Guy Perelmuter, fundador da GRIDS Capital, a computação quântica não é tecnologia de propósito geral. “A IA é como a eletricidade; a quântica será cirúrgica”, resume. O foco inicial recai sobre três pilares onde a simulação clássica falha:

  • Descoberta de fármacos e novos materiais (simulação molecular exata).
  • Otimização logística complexa (milhões de variáveis simultâneas).
  • Quebra e criação de novos padrões criptográficos.

No Brasil, a validação já começou. CBPF e ExxonMobil testam simuladores quânticos da IBM para exploração de petróleo e captura de carbono. No setor financeiro, Bradesco e Itaú pesquisam otimização de portfólios e segurança criptográfica pós-quântica.

O calendário realista: infraestrutura nos 2020, receita nos 2030

O consenso entre especialistas que acompanham o desenvolvimento de perto — como Perelmuter e Alexandre Pfeifer, líder da IBM Quantum no Brasil — desenha um horizonte em duas fases. Esta década serve para instalar a infraestrutura, corrigir erros em escala e provar que máquinas robustas funcionam fora do laboratório.

O gargalo central, diz Pfeifer, é ampliar a escala sem perder precisão. Cada qubit adicionado aumenta a sensibilidade a interferências. Resolver essa equação de engenharia é o que separa o protótipo caro do produto vendável.

O que observar daqui para frente

Se você é investidor ou tomador de decisão, três marcos ditam o ritmo real da adoção: a entrega do primeiro sistema fault tolerant comercialmente acessível (meta da QuEra para 2028), a validação da arquitetura modular da IBM em carga real e a padronização de algoritmos pós-quânticos pelo NIST. Até lá, o jogo é de posicionamento estratégico e P&D, não de ROI imediato. Quem entender isso agora, sai na frente quando a “geladeira” finalmente abrir as portas para o mercado.