Economia

O segredo da Fazenda: Quem comanda a economia num governo Flávio?

Flávio Bolsonaro em destaque com símbolos de poder e economia em disputa nos bastidores
A batalha pelo Ministério da Fazenda expõe rachas na campanha de Flávio Bolsonaro.

A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas de segundo turno antecipou uma guerra silenciosa nos bastidores: a escolha do ministro da Fazenda. A disputa expõe rachas entre familiares, aliados históricos e o mercado financeiro, justamente quando a campanha precisa responder à ofensiva do governo Lula contra o corte de R$ 200 bilhões — cerca de 1,5% do PIB — prometido pelo senador.

O desfecho dessa queda de braço sinalizará o rumo da política fiscal e a relação do futuro governo com o Banco Central. Para investidores e empresários, o nome que sair vitorioso ditando o tom da equipe econômica vale mais do que qualquer discurso de palanque.

O “efeito Tarcísio” e a entrada de peso do mercado

A reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo com 62,65% dos votos mudou o tabuleiro. O governador passou a atuar abertamente pela campanha de Flávio, costurando apoios do Republicanos, União Brasil, PP e Podemos.

Com esse capital político, Tarcísio colocou na mesa o nome de Roberto Campos Neto. Ex-presidente do Banco Central (2019-2024) e atual vice-chairman global do Nubank, Campos Neto agrada à Faria Lima pela credibilidade na condução da política monetária. A amizade com o governador paulista, forjada no governo anterior, é o trunfo da articulação.

Mas há obstáculos. Críticos apontam a atuação do ex-presidente do BC no caso Master como risco reputacional. Do outro lado, aliados garantem que seu foco está na expansão internacional do Nubank, especialmente nos EUA, o que dificultaria uma volta a Brasília. Procurados, nem Tarcísio nem Campos Neto comentaram.

O contra-ataque da família: Eduardo Bolsonaro e o nome da vez

Enquanto Tarcísio avança, Eduardo Bolsonaro movimenta sua própria peça: Marcelo Kayath, sócio da gestora QMS Capital e ex-alta liderança do Credit Suisse. Eduardo foi quem viabilizou a candidatura de Flávio contra a preferência inicial do mercado por Tarcísio; por isso, aliados acreditam que seu peso na escolha do ministro será decisivo.

Kayath tem trânsito entre banqueiros e empresários e fala com desenvoltura sobre ajuste fiscal e trajetória de queda de juros. No entanto, enfrenta “fogo amigo” intenso. Seu histórico de apoio a Lula e críticas à gestão de Paulo Guedes geram desconfiança no núcleo duro bolsonarista.

O centro da disputa: Daniella Marques e a ponte com o establishment

Oficialmente porta-voz econômica e coordenadora do plano de governo, Daniella Marques (ex-presidente da Caixa) ocupa posição estratégica. Amiga de Campos Neto e vice dele no conselho da Fiesp, ela teria preferência por Alexandre Bettamio, executivo do Bank of America.

Sua ascensão trouxe visibilidade — e ataques internos. Marques nega articulações: “Todo nosso tempo é dedicado a eleger Flávio. Não aceito que usem minhas relações para especular”, afirmou. Nos bastidores, seu nome circula com força para um “superministério” social, o que a tiraria da linha de frente da Fazenda.

Os nomes que correm por fora (e a carta na manga do Senado)

Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia, comanda o núcleo econômico da campanha. Próximo a Jair e Carlos Bolsonaro, é cotado para Infraestrutura ou Planejamento, mas mantém influência direta no candidato.

A grande incógnita, porém, é o Senado. A negociação pela presidência da Casa — entre Davi Alcolumbre e Tereza Cristina (PP-MS) — pode ditar a escolha. Tereza, “vice dos sonhos” de Flávio barrada pelo partido, defende Campos Neto. Se não for senadora, assume Relações Exteriores.

Um aliado próximo a Flávio não descarta uma surpresa: o senador Rogério Marinho (PL-RN), ex-ministro do Desenvolvimento Regional. A nomeação serviria como moeda de troca na complexa equação legislativa.

Os cotados para o comando da Fazenda

  • Roberto Campos Neto: Ex-BC, Nubank. Apoio: Tarcísio de Freitas / Tereza Cristina.
  • Marcelo Kayath: QMS Capital / Ex-Credit Suisse. Apoio: Eduardo Bolsonaro.
  • Alexandre Bettamio: Bank of America. Preferido de Daniella Marques.
  • Daniella Marques: Ex-Caixa. Porta-voz oficial. Cotada para área social.
  • Adolfo Sachsida: Ex-Minas e Energia. Núcleo duro (Jair/Carlos). Cotado para Infraestrutura/Planejamento.
  • Rogério Marinho: Senador (PL-RN). Opção surpresa ligada à articulação no Senado.
  • Mansueto Almeida: BTG Pactual. Diz a amigos que não tem interesse em voltar ao governo.

O que observar daqui para frente

A definição depende de três variáveis que se movem em velocidade diferente: o resultado das urnas no segundo turno, a composição da Mesa do Senado em 2025 e a vontade final de Jair Bolsonaro — que, na avaliação unânime da campanha, detém o veto decisivo.

Enquanto Flávio equilibra os pratos sem anunciar nomes, o mercado faz a leitura tática: a escolha será o primeiro ato concreto de governabilidade. Um nome de perfil técnico (Campos Neto, Bettamio, Mansueto) acena para ortodoxia e diálogo com o BC. Um nome político (Marinho, Sachsida) ou ligado à ala ideológica (Kayath) sinaliza prioridade para a base e controle interno.

Para o empresariado, a recomendação prática é monitorar a articulação pela presidência do Senado nas próximas semanas. É dali que virá o sinal mais claro sobre qual das facções — a do governador paulista, a do clã familiar ou a do establishment financeiro — terá a caneta na mão para assinar o primeiro decreto da Fazenda.