Economia

Mixue freia no Brasil: por que a gigante de 50 mil lojas pisou no freio

Logotipo da Mixue com loja ao fundo, simbolizando expansão freada no Brasil
A gigante chinesa Mixue reduz ritmo de abertura de lojas no Brasil após atingir 50 mil unidades globais.

A rede chinesa Mixue, dona do maior número de pontos de venda do mundo — 50 mil unidades, 90% concentradas na China — reduziu o ritmo de expansão no Brasil. A marca ultrapassou McDonald’s e Starbucks em capilaridade global, mas enfrenta obstáculos locais que freiam seu plano de crescimento.

Três fatores principais explicam a desaceleração. O efeito imediato atinge franqueados e investidores que apostavam na velocidade de abertura de lojas. Entender cada barreira revela se o movimento é temporário ou sinaliza uma mudança estrutural na estratégia da companhia.

O peso da operação própria antes da franquia

Diferente do modelo padrão de franchising, a Mixue exige que a master franqueada abra e opere lojas próprias antes de subfranquear. No Brasil, essa fase piloto consome capital e tempo. A exigência cria um gargalo: a expansão em escala só começa após a validação do modelo local.

Enquanto a validação não ocorre, a receita de royalties e taxas de franquia fica travada. Para investidores, isso posterga o retorno projetado e eleva o risco de capital imobilizado em unidades experimentais.

Custo Brasil e a matemática do sorvete a R$ 3

O posicionamento de preço ultracompetitivo — sorvetes e chás na faixa de R$ 3 a R$ 6 — deixa margem zero para ineficiência. A carga tributária, custo de mão de obra e logística no Brasil comprimem a rentabilidade de um modelo desenhado para economias de escala chinesas.

  • Impostos sobre consumo (ICMS, PIS/Cofins) elevam o custo final em até 34%
  • Aluguel em pontos de alto fluxo consome 12% a 18% do faturamento bruto
  • Insumos lácteos e açúcar têm volatilidade cambial direta

A equação fecha na China com volume massivo. No Brasil, o volume inicial é baixo e a estrutura de custos, alta. O resultado é payback estimado acima de 36 meses — o dobro do praticado no mercado asiático.

Incerteza regulatória e cambial trava decisões

A terceira barreira não é operacional, mas macroeconômica. Mudanças recentes na tributação de importados, oscilação do yuan frente ao real e discussões sobre reforma tributária criam cenários de custo imprevisíveis. A master franqueada brasileira adotou postura conservadora: pausar novas assinaturas de contrato até que o ambiente estabilize.

Essa cautela se reflete no pipeline: de 200 unidades projetadas para 2024, menos de 30 foram inauguradas até o terceiro trimestre. A meta foi revista para “expansão orgânica e seletiva” nos comunicados internos.

O que observar nos próximos trimestres

A Mixue não saiu do Brasil — apenas mudou a marcha. Três sinais indicarão se a aceleração volta: conclusão da fase de lojas próprias com rentabilidade comprovada, definição da alíquota efetiva da reforma tributária para o setor de alimentação e estabilização do câmbio em patamar que preserve a margem do ticket médio baixo.

Enquanto isso, concorrentes nacionais e regionais ganham tempo para ocupar pontos comerciais e fidelizar o consumidor de sobremesa acessível. O mercado de gelado e chá barato segue quente; a dúvida é quem vai servir.