Economia

El Niño extremo: o segredo que faz o agro e a construção perderem dinheiro

Canteiro de obra parado e lavoura seca sob céu tempestuoso, ilustrando impacto do El Niño extremo no agro e construção no Brasil
El Niño muito forte paralisa canteiros e reduz safras, expondo prejuízos bilionários no campo e na construção civil brasileira.

Um El Niño classificado como “muito forte” já reorganiza a rotina de quem produz alimentos e ergue prédios no Brasil. A conta chega na forma de safras menores e cronogramas estourados. Entender como esses setores estão se blindando revela para onde o dinheiro inteligente está migrando agora.

O fenômeno climático não é novidade, mas a intensidade prevista para este ciclo assusta até veteranos. Produtores rurais relatam perdas diretas na colheita, enquanto canteiros de obra param com frequência inédita. O impacto, porém, vai além da porteira e do tapume.

O termômetro do galinheiro e a conta do mirtilo

Na propriedade de Leonardo Maciel dos Santos, pecuarista e produtor de mirtilo, a adaptação virou rotina diária. As galinhas servem de alerta natural: ficam presas pela chuva, soltas pelo calor extremo e precisam ser recolhidas às pressas antes das pancadas da tarde. Esse estresse animal reflete direto na produtividade.

Para proteger os mirtilos do vento e da chuva forte, a estratégia foi reduzir a poda, mantendo mais folhas como escudo natural. O resultado imediato? Uma queda de até 2,5 quilos por pé na safra atual. É o custo tangível de segurar a qualidade em um cenário de instabilidade.

  • Cerca viva: Plantio de árvores nativas no perímetro para quebrar o vento.
  • Recuperação de nascentes: Garantia hídrica de longo prazo.
  • Manejo de copa: Menos poda, mais proteção, menos volume colhido.

Pequenos produtores absorvem alta de custos operacionais enquanto veem a receita encolher. A equação fecha no vermelho para quem não tem capital de giro para tecnologias de precisão ou seguros robustos.

Por que o risco climático virou item de planilha de investimento

Amanda Schutze, coordenadora do Centro de Estudos em Economia do Clima da FGV, aponta uma mudança estrutural: o risco climático deixou de ser “exogeno” para virar variável central no valuation de projetos. Eventos extremos ditam preços e produtividade macroeconômica.

Ela ilustra com o trabalhador a céu aberto. Calor extremo derruba a produtividade individual, eleva gastos com saúde e empurra prazos. “Além das consequências do impacto para a pessoa, que é imensurável, também tem o impacto econômico”, resume. A conta chega no PIB setorial.

Canteiro parado: a engenharia contra o relógio

Na construção civil, a chuva não é apenas incômodo; é paralisação técnica. Terraplanagem, armação de vigas e concretagem de laje exigem tempo seco para garantir integridade estrutural e segurança. Cada dia de temporal é um dia a menos no cronograma contratual.

Renato Genioli Júnior, diretor de construtora, detalha a resposta operacional: sistemas de proteção periférica em todos os pavimentos. A barreira serve triplo propósito: segurar o trabalhador, proteger pedestres no entorno e impedir que materiais virem projéteis com rajadas de vento. É custo extra de CAPEX para mitigar atraso.

O que observar daqui para frente

A combinação de El Niño intenso + aquecimento global sugere que a “anomalia” virou a nova linha de base. Para o investidor e o gestor, três movimentos merecem monitoramento contínuo nos próximos trimestres:

  • Migração de safras: Deslocamento de culturas sensíveis para regiões com janelas climáticas mais estáveis.
  • Contratos de obra: Cláusulas de force majeure mais detalhadas e fundos de contingência climática maiores nos orçamentos.
  • Seguro paramétrico: Crescimento da adesão a apólices acionadas por índices pluviométricos ou de temperatura, não por laudo de perdas.

Quem precifica o clima como variável controlável, e não como azar, sai na frente. A adaptação deixou de ser custo operacional para virar diferencial competitivo.