A indústria automotiva brasileira atravessa uma transformação irreversível, impulsionada pela ofensiva de montadoras chinesas com tecnologia avançada e preços agressivos. O cenário muda em velocidade que pegou as tradicionais de surpresa.
Quem avisa é Rogelio Golfarb, ex-vice-presidente da Ford na América do Sul e ex-presidente da Anfavea. Para ele, o nome do jogo agora é adaptação — e quem não acelerar, fica para trás.
O cálculo que fez motoristas de aplicativo trocarem de carro
Em São Paulo, um motorista de Uber roda, em média, 250 quilômetros por dia. Com um elétrico, ele recarrega em casa durante a noite e gasta cerca de um terço do que pagaria com gasolina ou etanol. O resultado prático: colegas que migraram relatam ganhos até o dobro.
Essa conta simples está redesenhando a frota urbana mais rápido do que qualquer política pública. A demanda por eletrificados deixa de ser ambiental e vira questão de sobrevivência financeira.
Produção chinesa em escala que o Ocidente não alcança
A vantagem competitiva da China não é mistério: é volume. Em 2025, o país produziu 34,5 milhões de veículos. Os Estados Unidos ficaram em 10 milhões e a Europa, em 14 milhões. A diferença de escala permite custos de projeto e verticais de integração inalcançáveis para concorrentes isolados.
No varejo, o Brasil vendeu 2,6 milhões de unidades no ano passado — volume semelhante ao que os americanos emplacaram apenas em elétricos. Na China, foram 16,5 milhões de eletrificados. Na Europa, 4,5 milhões.
- China: 34,5 mi veículos totais | 16,5 mi elétricos (2025)
- EUA: ~10 mi veículos totais | ~2,6 mi elétricos
- Europa: 14 mi veículos totais | 4,5 mi elétricos
- Brasil: 2,6 mi veículos vendidos (2024)
Fábricas no Brasil: montagem ou desenvolvimento?
A BYD em Camaçari e a GWM iniciaram operações com forte dependência de componentes importados. Golfarb reconhece a tensão gerada, mas aponta que o foco das líderes globais migrou da peça para a intensidade tecnológica — telas, chips, semicondutores, software.
“Podemos produzir toda a parte mecânica e de aço, mas a tecnologia vem de fora”, resume. A lenda de que a produção local encareceria os chineses não se sustenta: a verticalização e a escala mantêm a competitividade mesmo com custos brasileiros.
Vendas em alta, mas com avisos no painel
A Anfavea revisou as projeções para 2026: crescimento de 15,2% nas vendas e 6,7% na produção nacional. O motor não é crédito farto — como em ciclos passados — mas redução de preços que atraiu consumidores com poder de compra.
O risco de inadimplência existe, porém com perfil diferente: não é endividamento excessivo de quem não podia comprar, mas antecipação de decisão por oportunidade. Ainda assim, carga tributária e juros altos seguem como freios estruturais.
O “segundo pré-sal” que o Brasil ignora
O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras e minerais críticos para eletrificação, além de parque industrial consolidado. Para Golfarb, falta visão estratégica de longo prazo: em vez de benefícios pontuais a montadoras âncora, o governo deveria estruturar a cadeia a partir da mineração.
“Terras raras hoje é quase um segundo petróleo. Pré-sal”, define. A geopolítica global já trata o tema como segurança nacional.
Etanol, hidrogênio e o limite da aposta local
O etanol viabiliza híbridos competitivos no Brasil, mas tem teto geopolítico: “ninguém vai trocar a dependência do petróleo pela dependência do etanol brasileiro”. O vetor global é a eletrificação — inclusive com geração distribuída, como prova a Tesla vendendo kits solares e baterias residenciais nos EUA.
Carro virou smartphone: a geração Z volta a se interessar
Jovens que ignoravam automóveis estão voltando a olhar para o setor. O motivo: o veículo virou “uma tela de um grande celular”. Conectividade, atualizações over-the-air e interfaces digitais transformam o produto em extensão da vida digital.
Brasil como laboratório global do futuro
Mesmo não sendo o maior importador de chineses em volume — a Rússia lidera —, o Brasil funciona como microcosmo. Os EUA fecharam as portas, mas observam daqui o que acontece quando barreiras caem e a competição tecnológica chega sem filtros.
O que observar nos próximos trimestres
Acompanhe três variáveis decisivas: a definição do imposto seletivo na reforma tributária (pode alterar a equação de custos), a velocidade de nacionalização de componentes de alta tecnologia (chips, baterias, software) e a resposta das montadoras tradicionais — aliança, aquisição ou encolhimento. O tabuleiro está aberto. Quem mover as peças primeiro, dita as regras.
