Economia

O segredo que fez a Estrella Galicia roubar a cena na F1 e no Brasil

A Estrella Galicia transformou a cerveja sem álcool em sua principal arma de crescimento no Brasil, e os números provam que a aposta está funcionando: a categoria já responde por 10,9% do volume total da marca no país. A jogada combina patrocínios de peso na Fórmula 1 e na MotoGP com uma mudança real no comportamento do consumidor.

Mas por que uma cervejaria familiar espanhola de 1906 resolveu apostar tudo no zero álcool justamente agora? A resposta está no cruzamento entre esporte, legislação e um mercado que amadureceu mais rápido do que os gigantes previam.

O motor por trás da expansão

O Brasil tornou-se o segundo maior mercado mundial de cerveja zero álcool, superado apenas pela Alemanha, segundo a World Brewing Alliance. Esse avanço não aconteceu por acaso: a legislação permite que rótulos “sem álcool” tenham até 0,5% de teor residual, enquanto os “0,0%” garantem no máximo 0,05% — praticamente indetectável.

Essa segurança regulatória deu confiança para que a categoria saísse da prateleira de “opção para quem dirige” e entrasse em ocasiões de esporte, lazer e socialização. Juliana Aguiar, diretora-geral da operação brasileira, resume: “A cerveja sem álcool deixou de estar restrita às situações em que a pessoa não pode consumir álcool e passou a fazer parte de novas ocasiões”.

Fórmula 1: mais que logotipo no capacete

A relação com a categoria máxima do automobilismo começou em 2015, com o patrocínio ao piloto Carlos Sainz Jr. — então na Toro Rosso. A parceria atravessou a passagem dele pela Ferrari (2021-2023) e incluiu um acordo de dois anos com a McLaren em 2019, retomado em 2024.

Para 2025, a marca fechou como cerveja oficial da Atlassian Williams F1 Team, completando 13 anos de vínculo ininterrupto com Sainz. Paralelamente, a Estrella Galicia assumiu presença exclusiva nos boxes e hospitalidade da Porsche Cup C6 Bank, campeonato de Gran Turismo que roda o país.

O movimento não é isolado. Cada grande player escolheu seu território:

  • Heineken: patrocinadora oficial da F1 desde 2016, criou o Heineken Village em Interlagos — 30 mil m² para 12 mil pessoas/dia, ingressos esgotados meses antes.
  • Corona Cero: cerveja oficial dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos até 2032, via parceria COI/AB InBev.
  • Bud Zero: aposta em música (Lollapalooza) e esporte internacional (NFL Rio Game no Maracanã).

Onde a batalha realmente será decidida

Enquanto o marketing leva o consumidor até a primeira compra, a fidelização depende do que tem no copo. Roberto Kanter, especialista em Marketing e Vendas da FGV, é direto: “À medida que o segmento amadurece e a associação com o esporte deixa de ser novidade para virar regra, a decisão final no ponto de venda dependerá prioritariamente de atributos sensoriais e de produto”.

A inovação já foi além de apenas retirar o álcool. A Ambev lançou em São Paulo e Rio a Spaten Pro: uma Munich Dunkel sem álcool com 10 gramas de proteína por lata. O consumidor, que antes avaliava o rótulo pelo que faltava, agora busca benefícios positivos — funcionalidade, sabor, perfil nutricional.

O que observar daqui para frente

O mercado de cerveja zero álcool no Brasil entrou na fase de consolidação. Quem vencer não será quem tiver o maior box na F1 ou o melhor camarote no estádio, mas quem entregar líquido que convença o paladar na segunda, terceira e décima compra. A Estrella Galicia ganhou visibilidade; agora precisa provar que o copo sustenta a promessa do patrocínio.