O primeiro caça Gripen E totalmente montado em solo brasileiro completou seu voo inaugural nesta terça-feira (06) em Gavião Peixoto (SP). O teste marca a maturidade da única linha de produção do vetor fora da Suécia, mas o verdadeiro impacto vai muito além da Força Aérea Brasileira. A fábrica paulista está se tornando um nó logístico essencial para atender a carteira global de encomendas da Saab.
Piloteado pelo chefe de testes da Saab, Jakob Högberg, com planejamento de engenheiros brasileiros, o voo valida a transferência de tecnologia que capacitou 350 profissionais no exterior. Hoje, 90% da equipe de montagem no interior de São Paulo é composta por mão de obra nacional treinada para o programa.
De suplente da FAB a peça-chave da cadeia global
A unidade de Gavião Peixoto foi concebida para entregar 36 aeronaves ao Brasil (contrato FX-2 de 2014, US$ 3,77 bi, mais 4 unidades adicionais). O cronograma original prevê conclusão até 2027. Porém, a demanda internacional explodiu e a fábrica sueca de Linköping atingiu o teto de capacidade.
Em julho de 2024, no Farnborough Airshow, Embraer e Saab assinaram memorando para montar mais 20 jatos no Brasil destinados ao mercado externo. O contrato definitivo é esperado para 2026. A planta deixa de ser um projeto de offset para virar alternativa industrial estratégica, encurtando prazos de entrega e distribuindo risco de produção.
Os contratos que garantem a fila de produção
A carteira de pedidos internacionais já garante volume para justificar a expansão da linha sul-americana. Veja os principais acordos firmados ou em fase avançada:
- Colômbia (Nov/2025): 17 aeronaves (15E + 2F) por € 3,1 bi; entregas até 2032. Proximidade logística coloca a Embraer como candidata natural à montagem.
- Tailândia: 4 unidades (3E + 1F) por 5,3 bi de coroas suecas.
- Ucrânia (Jun/2024): 16 Gripen E para a Força Aérea; 24,6 bi de coroas suecas; entregas entre 2029 e 2030.
Além desses, a Saab negocia com países da Ásia e Leste Europeu. A capacidade ociosa em Gavião Peixoto passa a ser ativo valioso para a sueca honrar prazos sem gargalos na Europa.
Especificações táticas: O que o F-39 entrega à defesa
Designado F-39 na FAB, o caça substitui os veteranos F-5M (em serviço desde 1975). Os números de desempenho explicam o apeteite internacional:
- Velocidade máxima: 2.400 km/h (Mach 2).
- Teto operacional: 16.000 metros.
- Raio de combate: 1.100 km (configuração armada); autonomia de traslado de 4.000 km.
- Peso máximo de decolagem: 16,5 toneladas.
- Armamento: Mísseis ar-ar (curto e longo alcance), ar-superfície, bombas guiadas a laser/GPS.
- Sensores: Radar AESA e suíte de guerra eletrônica permitem missões swing-role (defesa aérea, ataque e reconhecimento na mesma surtida).
As dez unidades já recebidas (produzidas na Suécia) operam no 1º Grupo de Defesa Aérea em Anápolis (GO), base que passou por reforma para abrigar simuladores e centros de planejamento.
O que observar nos próximos movimentos
Dois vetores definirão o ritmo da fábrica paulista daqui para frente. Primeiro, a assinatura do contrato definitivo dos 20 jatos de exportação acordados em Farnborough, que travou a configuração final da linha para “dual-use” (FAB + exportação). Segundo, a decisão do Ministério da Defesa sobre o segundo lote nacional: estudos apontam para a aquisição de mais 26 caças, o que alongaria a produção local bem além de 2027.
A divisão do trabalho entre Linköping e Gavião Peixoto para o contrato colombiano — e eventuais novos clientes — será o termômetro real da competitividade de custo e prazo da operação brasileira. Se a Embraer demonstrar eficiência igual ou superior à matriz sueca, o país consolida-se como fornecedor Tier 1 de sistemas de combate de 4,5 geração, abrindo portas para parcerias em programas futuros, como o caça de 6ª geração (FCAS/Tempest).
