A Polícia Federal encontrou no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro um retrato cru dos últimos dias do Banco Master: trocas de mensagens com o sócio revelam tentativas frenéticas de fechar o caixa e admitem calote em clientes poucas horas antes da intervenção do Banco Central.
O material, obtido com exclusividade pelo Valor, mostra que a liquidação não pegou a cúpula de surpresa — a surpresa foi a velocidade com que as opções se esgotaram.
O que as conversas revelam sobre a gestão final
Nos diálogos, Vorcaro e o sócio discutem “malabarismos” para honrar compromissos de curto prazo. A expressão aparece repetidamente. Não há menção a estratégias de longo prazo, apenas a operações de encaixe: vender ativos a preços de liquidação, alongar vencimentos com credores institucionais e segurar resgates de fundos próprios.
Em um trecho, um dos sócios admite: “Vamos ter que calotear alguns clientes”. A frase, sem eufemismos, indica que a instituição já operava com seletividade no pagamento — escolha que, juridicamente, configura gestão fraudulenta.
O cerco regulatório e a janela que se fechou
A intervenção do BC, decretada no início de outubro, foi precedida de meses de monitoramento intensificado. Fontes próximas ao processo afirmam que o Master vinha descumprindo índices de Basileia e regras de grandes exposições desde o primeiro trimestre.
O que as mensagens adicionam é a visão interna: a diretoria sabia que o prazo para capitalização havia acabado. Tentativas de aporte de fundos estrangeiros e de venda de carteiras de crédito consignado não avançaram. A liquidez seca virou o gatilho final.
Impacto direto para credores e investidores
- Cotistas de fundos exclusivos: resgates foram travados dias antes da liquidação; valores seguem bloqueados.
- Detentores de CDBs e LCs: cobertos pelo FGC até R$ 250 mil; acima disso, entram na fila de credores quirografários.
- Fornecedores e prestadores: pagamentos suspensos unilateralmente na semana da intervenção.
A lista acima resume a hierarquia de perdas. O FGC já iniciou o pagamento da tranche garantida; o restante depende da recuperação judicial que o banco deve pleitear nas próximas semanas.
O que observar daqui para frente
Três frentes definirão o desfecho financeiro: a apuração de responsabilidade dos administradores — que pode gerar ações de regresso —, a avaliação independente dos ativos remanescentes (carteiras de crédito, participações em fintechs, imóveis) e a adesão de credores a um eventual plano de recuperação.
Para o mercado, o caso Master reforça a necessidade de monitorar indicadores de liquidez intradiária e concentração de funding em instituições de médio porte. O BC sinalizou que revisará os gatilhos de intervenção precoce ainda neste semestre.
