Economia

O ajuste fiscal que o próximo presidente não pode evitar… e o risco que ninguém cita

Gráfico da dívida pública brasileira subindo com prédio do Planalto ao fundo
Déficit primário e dívida bruta pressionam próximo governo brasileiro.

O próximo ocupante do Planalto herdará uma conta que não fecha: o déficit primário projeta-se acima de 2% do PIB em 2024, e a dívida bruta caminha para 80% do PIB sem freio à vista. A pergunta que fica é se haverá capital político para cortar na própria carne antes que o mercado cobre o preço.

Qualquer que seja o vencedor, a equação é a mesma. Receitas crescem abaixo do ritmo dos gastos obrigatórios — Previdência, pessoal e benefícios sociais —, enquanto o teto de gastos, já flexibilizado, deixa de funcionar como âncora. O resultado é uma trajetória explosiva que exige decisão imediata, não discursos de campanha.

Onde o aperto bate mais forte no bolso do empresário

Juros reais elevados por mais tempo. Se o fiscal não dá sinal de controle, o Banco Central mantém a Selic restritiva, encarecendo capital de giro e investimentos de longo prazo. Para quem depende de financiamento, cada ponto percentual a mais na taxa básica pesa no fluxo de caixa.

Câmbio pressionado. A percepção de risco fiscal afugenta capital externo, desvaloriza o real e repassa custos para insumos importados — de fertilizantes a semicondutores. A inflação, mesmo comportada no curto prazo, ganha viés de alta quando a moeda enfraquece.

Incerteza regulatória. Sem reforma tributária aprovada e com regras de partilha de royalties e precatórios em disputa, o planejamento estratégico vira aposta. Empresas seguram CAPEX e adiam contratações.

Os números que não mentem

  • Déficit primário 2023: R$ 230,5 bilhões (2,1% do PIB)
  • Dívida bruta: 74,4% do PIB em junho/2023, trajetória ascendente
  • Gastos obrigatórios: 93% das despesas totais, sobrando margem zero para investimento
  • Selic: 13,75% ao ano, com viés de alta se o fiscal piorar

Esses dados, divulgados pelo Tesouro e pelo BC, mostram que o ajuste não é opção ideológica — é condição de solvência. O mercado já precifica parte do risco, mas uma surpresa negativa no lado da despesa pode disparar prêmio de risco soberano.

Três cenários para os primeiros cem dias

Cenário base: governo propõe arcabouço fiscal crível, com meta de superávit primário de 0,5% do PIB em 2025 e regras de gatilho para despesas. Congresso aprova com modificações. Juros caem gradativamente a partir do 2º trimestre.

Cenário adverso: negociação política arrasta-se, medidas são fatiadas e perdem potência. Agências de rating colocam nota em perspectiva negativa. Dólar testa R$ 5,30 e Selic sobe 0,5 ponto extra.

Cenário de ruptura: tentativa de burlar teto via créditos extraordinários ou mudança de meta sem contrapartida. Reação imediata de curva de juros e saída de estrangeiros da bolsa. Probabilidade baixa, mas custo altíssimo.

O que separa retórica de execução

Histórico recente ensina que anúncios de “novo arcabouço” sem maioria parlamentar clara viram letra morta. O segredo está na articulação: líder do governo no Congresso, relator da matéria na Câmara e presidente do Senado precisam estar alinhados antes da posse. Sem isso, o primeiro semestre vira guerra de narrativas e o ajuste fica para 2025 — quando a dívida já terá ultrapassado 82% do PIB.

Outro ponto cego: a reforma tributária. A PEC 45/2019 avança no Senado, mas a transição de 2029 a 2033 cria zona de nebulosidade para setores como serviços e comércio. Quem investe hoje em estrutura logística ou fiscal precisa modelar dois regimes simultâneos por uma década.

O que observar daqui para a frente

Fique atento a três sinais nas primeiras semanas de mandato: (1) nome do ministro da Fazenda e seu grau de autonomia; (2) envio de proposta de arcabouço fiscal ao Congresso antes do Carnaval; (3) definição clara sobre regra de ouro e precatórios. A ausência de qualquer um deles antecipa volatilidade. Quem tem exposição a renda fixa prefixada ou cambial deve rever duration e hedge ainda em novembro. Quem planeja captação em 2024, melhor antecipar roadshow para janeiro — o custo de esperar pode ser a diferença entre viabilizar ou cancelar o projeto.