Estabilizar a dívida pública brasileira vai exigir um aperto de pelo menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos. A conta pode saltar para R$ 400 bilhões se o plano não convencer o mercado ou se os juros globais permanecerem elevados.
O rombo projetado para este ano é de R$ 67,3 bilhões — 0,5% do PIB. Com isso, a dívida bruta, já em 82,9% do PIB (maior nível em cinco anos), continua subindo. O número assusta, mas o tamanho do esforço real depende de variáveis que o próximo governo controla apenas em parte.
O alvo que separa sustentabilidade de calote
Economistas convergem: o superávit primário precisa chegar a 2% ou 2,5% do PIB até 2030. Sem maquiagens, sem contabilidades criativas. Hoje, a meta oficial é mais modesta: 1,5% do PIB no fim da década. Mesmo assim, auxiliares do Planalto admitem que isso demandaria cerca de R$ 300 bilhões de ajuste.
O Santander crava R$ 250 bilhões. O Barclays eleva para R$ 350 bilhões. A diferença não é erro de cálculo — é cenário.
Por que o juro lá fora muda a conta daqui
Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro, resume: com juro real global a 4%, o Brasil precisa de 1,9% de superávit. Se sobe a 5%, o esforço pula para 2,7% do PIB. Cada ponto percentual a mais na taxa internacional equivale a dezenas de bilhões a mais no ajuste doméstico.
Kawall propõe frear o crescimento real das despesas a 1% ao ano. O arcabouço atual permite 2,5%. A conta não fecha sem mexer nessa velocidade.
- Gasto real médio desde 2022: 5,3% ao ano — mais que o dobro do PIB
- Regra atual permite: até 2,5% de expansão real
- Nível sustentável sugerido: 1% acima da inflação
Onde cortar (sem chamar de corte)
Italo Franca, do Santander, evita a palavra “corte”. Prefere “redução do ritmo”. A matemática é simples: despesas crescendo 5,3% ao ano acima da inflação enquanto a economia patina. Algo cede.
Medidas estruturais citadas pelos especialistas:
- Desvincular benefícios sociais do salário mínimo
- Flexibilizar pisos constitucionais de Saúde e Educação
- Revisar subsídios e isenções tributárias
- Reforma administrativa para conter folha de pessoal
Todas politicamente tóxicas. Por isso, tanto a equipe de Lula quanto a de Flávio Bolsonaro evitaram detalhar planos na campanha.
Credibilidade vale mais que velocidade
Roberto Secemski (Barclays) é direto: “Ainda que não alcance o ajuste em dois anos, as medidas precisam ser ambiciosas o suficiente para perseverar nessa direção.” O mercado precifica a intenção antes do resultado. Uma sinalização crível derruba o juro da dívida — e alivia o próprio ajuste.
Zeina Latif (Gibraltar) vê chance de 1% de superávit no primeiro ano. Mais que isso, improvável. Ela destaca: nos governos Bolsonaro e Lula, a equipe econômica sozinha não entregou ajuste. Faltou compromisso do presidente e articulação política.
O Congresso não é coadjuvante
Emendas parlamentares inchadas tiraram do Executivo a moeda de troca. José Roberto Afonso, um dos pais da Lei de Responsabilidade Fiscal, compara a gestão fiscal a um voo: “Não se decola quando quer, nem pousa onde quer. Condições climáticas mudam.”
Sua crítica: metas genéricas ignoram impactos diferenciados. Ajuste eficiente combina medidas e depende de gestão, não de leis.
O que observar daqui pra frente
Três sinais dirão se o ajuste sai do papel nos primeiros 180 dias:
- Projeto de lei alterando indexadores de benefícios ao mínimo
- Proposta de emenda constitucional mexendo nos pisos de Saúde/Educação
- Envolvimento pessoal do presidente na articulação de votos
Sem isso, a dívida segue trajetória ascendente. E a conta, como sempre, chega para quem produz.
