Economia

O segredo das cidades que fazem o trabalhador subir na vida: não é o que você pensa

Mapa do Brasil com visualização de dados sobre mobilidade social e concentração de trabalhadores qualificados por município
Estudo da PNAS mostra que a mobilidade social no Brasil depende da localização de profissionais qualificados, não do investimento público.

Um estudo recém-publicado na PNAS revela que a chave para a mobilidade social no Brasil não está no volume de investimento público, mas sim em onde os profissionais mais qualificados escolhem trabalhar. A descoberta inverte a lógica tradicional sobre desenvolvimento regional e tem implicações diretas para quem decide onde alocar capital ou expandir operações.

Pesquisadores liderados por César Hidalgo, da Escola de Economia de Toulouse, analisaram dados da RAIS até 2018. O recorte: municípios onde a mão de obra qualificada e a não qualificada convivem no setor privado geram ascensão real de renda. Onde os talentos se concentram no funcionalismo, a escada social trava.

O mapa invisível que separa o Brasil em dois

O estudo divide o país numa linha diagonal que corta de Salvador ao Rio de Janeiro. Ao sul dessa fronteira, cidades como Joinville, Caxias do Sul e Campinas exibem taxa de permanência na base da pirâmide de apenas 33% após sete anos de carreira. Ao norte, o mesmo indicador supera 50%.

A diferença não é cultural. É estrutural. No Sul e Sudeste, engenheiros, técnicos e operários compartilham o chão de fábrica e escritórios de serviços. No Norte e Nordeste, os melhores salários e a estabilidade estão nas prefeituras, nos tribunais, nas universidades federais — ilhas de excelência que não dialogam com o tecido produtivo local.

Por que a segregação de talentos freia a economia inteira

Hidalgo resume em uma frase: “a estrutura da desigualdade importa mais que o nível da desigualdade”. Quando profissionais de alta qualificação circulam apenas entre pares no setor público, o spillover de conhecimento — aquele aprendizado informal que acontece no almoço, na reunião de projeto, no café — evapora.

O economista Alysson Portella (UFRGS) corrobora: as raízes são históricas. O Nordeste herdou um modelo de exploração de mão de obra barata; o Sul consolidou industrialização com imigração europeia. O passado explica o presente, mas não o determina — desde que haja política industrial consciente.

O que os números atuais confirmam (e o que assusta)

Dados do IBGE do segundo trimestre de 2024 mostram que o padrão persiste:

  • Desemprego: Nordeste 7,6% | Norte 6,1% | Sul 3,2% | Centro-Oeste 3,8%
  • Informalidade: Norte 50,4% | Nordeste 48,7% | Sul 28,8% | Sudeste 33,4%
  • Renda média: Nordeste R$ 2.645 | Norte R$ 2.926 | Centro-Oeste R$ 4.362 | Sul R$ 4.238

A convergência não aconteceu. A pandemia não reescreveu a geografia da oportunidade.

Três variáveis que investidores e gestores devem monitorar

O fechamento do estudo aponta caminhos práticos para quem opera no território brasileiro:

  • Políticas de fixação de talentos no setor privado — incentivos fiscais que tornem competitivo contratar engenheiros em vez de perdê-los para concursos;
  • Integração entre universidades e parques tecnológicos locais — o caso de Florianópolis e Recife (Porto Digital) prova que é possível reverter a lógica;
  • Desburocratização da contratação formal — a informalidade de 50% no Norte não é escolha cultural, é custo de transação.

O que observar daqui para frente

A Reforma Tributária e os novos marcos de saneamento e energia podem alterar o incentivo locacional de grandes empregadores privados. Se o custo de produzir no Nordeste cair e a segurança jurídica melhorar, a mescla de qualificações no setor privado deixa de ser exceção sulista e vira estratégia nacional. Quem antecipar esse movimento — seja abrindo filial, seja desenhando fundo de investimento imobiliário ou de venture capital — captura o upside da mobilidade social transformada em produtividade. O relatório da PNAS não é apenas ciência: é mapa de calor para alocação de capital inteligente.