Economia

O segredo que ninguém conta sobre a corrida pelas terras raras no Sul de MG…

Planalto de Poços de Caldas com jazidas de terras raras em destaque no Sul de Minas Gerais
A nova fronteira da mineração de terras raras no Planalto de Poços de Caldas atrai gigantes australianas.

Três gigantes australianas fecharam negócios bilionários em poucos meses para controlar jazidas no Planalto de Poços de Caldas. A região, antes conhecida pelo turismo e café, virou o novo tabuleiro geopolítico da transição energética — e o Brasil ainda não acordou para o tamanho da aposta.

O gatilho foi a aquisição da Meteoric Resources pela Lynas Rare Earths, anunciada no fim de outubro por A$ 968 milhões (R$ 3,5 bilhões). O cheque transfere o controle do projeto Caldeira, em Caldas (MG), para a maior produtora de terras raras fora da China. Não foi caso isolado.

O tabuleiro montado em tempo recorde

Em menos de dois anos, três grupos da Austrália travaram posição no Sul de Minas:

  • Lynas/Meteoric (Projeto Caldeira): 128 milhões de toneladas de recursos; meta de 3.862 t/ano de NdPr e 127 t/ano de DyTb. Início projetado para 2028.
  • Viridis Mining (Projeto Colossus): 200,1 milhões de toneladas de reservas; 5 milhões de toneladas de argila/ano por 40 anos. Capex estimado em R$ 1,7 bilhão.
  • Power Minerals (Morro do Ferro): Compra de R$ 80 milhões; alvo de 9,2–10,7 milhões de toneladas em sondagem ativa.

Todas em licenciamento ambiental. Todas com tecnologia de extração em argila iônica — mina a céu aberto, custo operacional drasticamente menor que rocha dura.

Por que a geologia mudou o jogo

A caldeira vulcânica extinta de ~800 km² expõe argilas iônicas ricas em neodímio, praseodímio, térbio e disprósio — os quatro elementos que fabricam ímãs permanentes de alta performance. Motores de EV, turbinas eólicas, mísseis, smartphones. A China domina 70% da mineração e 90% do processamento global. EUA e UE pagam prêmio por qualquer alternativa viável.

Estimativas conservadoras apontam que apenas 15% da área já mapeada comporta 2 bilhões de toneladas de argila mineralizada. Suficiente para 20 anos de operação na taxa atual. O projeto Caldeira sozinho mira 8% da demanda mundial; Colossus, mais 2–3%.

O dinheiro não para na extração

A Meteoric já assinou memorando com a sul-coreana POSCO para até 30% da produção por sete anos. Enviou amostras para EUA, Europa e Ásia. A Viridis fez o mesmo com players europeus e australianos. A americana USA Rare Earth, por sua vez, comprou participação na Serra Verde (GO) por US$ 2,8 bi — sinal de que o interesse transfronteiriço escala para cadeia completa: mina + separação + ímã + reciclagem.

O entrave invisível que pode travar tudo

Projetos vizinhos a comunidades, unidades de conservação e — no caso Caldeira — a 12 mil toneladas de rejeitos radioativos da antiga mina de urânio da INB. A Justiça Federal determinou nova avaliação de risco radiológico. O Ministério Público junto ao TCU pediu auditoria operacional sobre impactos cumulativos em água, solo e saúde pública.

Em paralelo, a Lei de Minerais Críticos (sancionada em setembro) promete até R$ 7 bi em incentivos para processamento nacional. Mas exige licença social e ambiental robusta — algo que ainda não existe para nenhum dos três projetos.

O que observar daqui para frente

Três gatilhos definem se o Sul de vira potência ou promessa: (1) emissão das Licenças Prévia e de Instalação até 2026; (2) fechamento de offtake agreements firmes (não apenas MoUs) com compradores ocidentais; (3) validação técnica da rota de processamento em escala piloto — a Viridis inaugurou laboratório em Poços de Caldas no 4T25, a Meteoric opera planta piloto desde 2023. Quem entregar primeiro captura o prêmio: ser o segundo elo ocidental da cadeia de ímãs, atrás apenas da australiana Lynas (hoje processando na Malásia e EUA). O relógio corre. Em 2028, a janela de oportunidade geopolítica pode fechar.