Denúncias de assédio eleitoral no trabalho saltaram de 85 para 809 nos nove primeiros meses do ano, segundo dados do Ministério Público do Trabalho. Só em setembro, foram 545 registros — oito vezes o volume de 2022. O que explica essa disparada e como proteger a empresa?
O crescimento não foi linear. Até julho, os números corriam em ritmo moderado. Em agosto, porém, 135 casos entraram no sistema contra apenas nove no mesmo mês de 2022. Setembro concentrou sozinho 67% do total anual. A aceleração coincide com o início oficial das campanhas para 2026.
Onde o assédio acontece e como ele se disfarça
Um levantamento do TST e do CSJT mapeou 51 processos onde o WhatsApp aparece como canal principal. Facebook e Instagram somam 20 menções. Mas o assédio não escolhe plataforma: e-mails corporativos, videoconferências e grupos de mensagens internas também servem de palco.
As táticas se combinam. Uma mesma denúncia pode envolver pressão psicológica, ameaça de demissão e envio compulsório de material de campanha por aplicativo. O estudo identificou cinco faces do problema:
- Terror psicológico (81,9%): narrativas catastróficas sobre o futuro da empresa se determinado candidato vencer.
- Assédio digital (67,4%): uso de WhatsApp, redes sociais e até IA para criar desinformação direcionada.
- Coerção econômica (61,6%): ameaças de demissão (48,6%), perda de cargo ou retaliação financeira.
- Assédio comportamental (47,8%): convocação a atos políticos, exigência de posturas públicas.
- Pressão documental e verbal: materiais escritos (61,6%) ou falas diretas (40,6%) cobrando alinhamento.
Por que a maioria das denúncias não vira processo ganho
Das decisões que rejeitaram pedidos de assédio eleitoral, 75,6% citaram fragilidade probatória. Depoimentos contraditórios, baseados em “ouvi dizer” ou vacilantes sob interrogatório têm peso reduzido. O caráter velado de muitas condutas — uma “sugestão” no grupo da equipe, um áudio apagado depois — dificulta a coleta de provas sólidas.
O medo de retaliação também silencia testemunhas. Trabalhadores relutam em depor contra quem assina sua folha de pagamento, especialmente quando a pressão vem de cima para baixo.
Geografia do risco: onde a fiscalização está mais ativa
São Paulo lidera com 129 processos analisados, seguido por Paraná (109), Rio Grande do Sul (77), Rio de Janeiro (48) e Santa Catarina (46). Esses cinco estados concentram quase 59% do total. Empresas com operações nesses locais devem redobrar a atenção — mas nenhuma região está imune.
A campanha oficial e os canais de denúncia
Em agosto, MPT, TST e TSE lançaram a campanha “No meu voto mando eu”, voltada à prevenção nas eleições de 2026. As denúncias podem ser feitas:
- Diretamente ao Ministério Público do Trabalho (canais digitais e presenciais).
- À Justiça Eleitoral.
- Às ouvidorias dos Tribunais Regionais do Trabalho.
- Aos sindicatos de categoria — centrais sindicais também recebem relatos.
Internamente, o caminho via compliance ou RH só funciona se houver independência real. Se a pressão parte da alta gestão, o canal interno pode se tornar armadilha.
O que a empresa riskha: multa, indenização e até prisão
O empregador que pratica ou permite assédio eleitoral está exposto a:
- Multas administrativas e trabalhistas.
- Rescisão indireta — o funcionário sai com todos os direitos como se tivesse sido demitido sem justa causa.
- Indenização por danos morais coletivos e individuais.
- Sanções penais por crime eleitoral, incluindo pena de prisão.
O que observar daqui para frente
Com a campanha de 2026 já nas ruas, o pico de setembro tende a se repetir — ou superar — nos meses que antecedem o primeiro turno. Empresas que não tiverem política clara, treinamento de lideranças e canal de denúncia independente e confiável vão figurar nas estatísticas do MPT. O custo de prevenir é uma fração do custo de responder a uma ação civil pública. Revise suas diretrizes agora; o calendário eleitoral não espera.
