A australiana Lynas acaba de fechar a maior aquisição do setor no Brasil: R$ 3,5 bilhões pelo controle do projeto Caldeira, em Caldas (MG). O cheque milionário confirma o que o mercado já sussurrava: o Sul de Minas virou a nova fronteira global de minerais críticos. Mas a geologia explica apenas metade da história.
Por trás da corrida australiana, há uma disputa geopolítica silenciosa. China controla 70% da produção e 90% do processamento de terras raras. EUA e União Europeia precisam de alternativas urgentes para turbinas eólicas, carros elétricos e defesa. O vulcão adormecido de Poços de Caldas oferece exatamente o que eles buscam: argila iônica rasa, barata de extrair e rica em neodímio, praseodímio, térbio e disprósio.
Três gigantes, um mesmo alvo: o Planalto de Poços de Caldas
Não é só a Lynas. Em menos de dois anos, três grupos australianos travaram posição na caldeira vulcânica de 800 km². Cada um em estágio diferente, mas todos com licenças encaminhadas e operação prevista para 2028:
- Meteoric/Lynas (Projeto Caldeira): 425 hectares, 128 milhões de toneladas de recursos. Meta: 3.862 t/ano de NdPr e 127 t/ano de DyTb.
- Viridis (Projeto Colossus): 373 hectares, 200 milhões de toneladas de reservas. Investimento previsto de R$ 1,7 bilhão para processar 5 milhões de toneladas/ano por 40 anos.
- Power Minerals (Morro do Ferro): Compra de R$ 80 milhões. Alvo inicial de 9 a 10,7 milhões de toneladas em sondagem ativa.
Somados, os projetos desenham um polo capaz de suprir cerca de 20% da demanda mundial, segundo estimativas do setor. O Caldeira sozinho mira 8% do mercado global.
Por que a Austrália lidera a fila?
O país tem a 4ª maior reserva do mundo (5% do total) e know-how consolidado em mineração fora da China. Mas o movimento vai além da extração. Meteoric e Viridis já enviam amostras para testes nos EUA, Europa, Coreia do Sul e Austrália. A sul-coreana POSCO assinou MoU por até 30% da produção do Caldeira por sete anos. A americana Ucore negocia testes de separação. A cadeia de valor — da mina ao ímã — está sendo costurada agora.
A janela brasileira: lei nova, dinheiro na mesa
Em setembro, foi sancionada a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto prevê até R$ 7 bilhões em incentivos para processamento local, P&D e reciclagem de superímãs. O Brasil tem a 2ª maior reserva global, mas produz só 1%. A lei tenta virar essa chave: transformar minério em produto de alto valor antes de embarcar.
Paralelamente, a USA Rare Earth aportou US$ 2,8 bilhões na Serra Verde (GO), sinalizando que o apetite estrangeiro não se restringe a Minas.
O risco que ninguém ignora: urânio, água e justiça
O otimismo esbarra no passivo ambiental. O projeto Caldeira faz fronteira com a antiga mina de urânio da INB, em Caldas, que guarda 12 mil toneladas de resíduos radioativos em descomissionamento. A proximidade gerou ação judicial e determinou nova avaliação de risco radiológico. Em setembro, o Ministério Público junto ao TCU pediu auditoria operacional sobre os impactos cumulativos dos projetos Caldeira e Colossus na água, solo e saúde pública.
Licenciamento, viabilidade econômica e licença social não são caixas de verificação. São variáveis que definem se 2028 vira operação real ou promessa adiada.
O que observar daqui para frente
Três gatilhos ditam o ritmo nos próximos 24 meses: a conclusão dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) sob escrutínio do TCU, a definição das rotas de processamento (quem separa os óxidos no Brasil?) e a materialização dos contratos de offtake além dos MoUs. Quem chegar primeiro à planta de separação comercial captura a margem. O vulcão espera — mas o capital não.
