Os países do G7 fecharam acordo para injetar 100 milhões de barris de diesel e petróleo bruto no mercado global a partir de agora. A medida, coordenada pela Agência Internacional de Energia, atende a um pedido direto da Casa Branca para conter a alta do combustível antes das eleições legislativas nos EUA.
O volume equivale a 34% dos estoques de emergência de diesel e gasóleo da União Europeia e representa cerca de 3% do consumo anual do bloco. A liberação será escalonada em quatro meses, com uma parcela “substancial” nos primeiros 20 dias.
Por que o preço do diesel disparou para US$ 200 o barril
A cotação ultrapassou US$ 200 por barril nas três principais praças — Estados Unidos, Europa e Ásia — nas últimas semanas. Não foi um único choque, mas uma tempestade perfeita:
- Guerra no Oriente Médio reduzindo oferta de petróleo bruto
- Conflito Rússia-Ucrânia limitando fluxos tradicionais para a Europa
- China restringindo exportações de combustíveis refinados — em outubro, Pequim não concedeu cotas às maiores refinarias, exceto para Hong Kong e Macau
- Paradas de manutenção não programadas em refinarias globais
No Reino Unido, o litro do diesel superou 2 libras (R$ 13,86) pela primeira vez na história, segundo a RAC.
A pressão americana e a ameaça velada
Dois diplomatas confirmaram que a Casa Branca exigiu a liberação de pelo menos 100 milhões de barris. O recado foi claro: se a Europa não colaborasse, os EUA proibiriam exportações próprias de diesel. O anúncio do acordo veio na madrugada de sexta-feira (2), após conversa entre Macron e Trump sobre a necessidade de ação conjunta.
Em sua rede social Truth Social, Trump celebrou: “A Europa acaba de concordar em liberar uma enorme quantidade de seu óleo diesel, cujos estoques estão elevados. O processo começará imediatamente.”
O que já foi feito e o que falta cumprir
Em março, o G7 já havia prometido 73 milhões de barris de combustíveis refinados dentro de um pacote de 400 milhões coordenado pela AIE. Os EUA praticamente concluíram sua parte. Alguns países europeus, porém, ainda não entregaram o combinado, segundo Fatih Birol, diretor-executivo da agência.
Esse descumprimento parcial ajuda a explicar a urgência do novo anúncio. A credibilidade do mecanismo de reservas estratégicas está em teste.
Mudança estrutural no abastecimento europeu
Vale notar: a Europa reduziu drasticamente a dependência do diesel russo e do Oriente Médio. Nos últimos anos, o bloco passou a importar volumes crescentes dos Estados Unidos. Essa reconfiguração logística torna qualquer decisão americana de restringir exportações um risco imediato para o abastecimento europeu — e explica a rapidez com que o G7 atendeu ao pedido.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis definirão se a medida surtirá efeito duradouro:
- Ritmo real de liberação nos primeiros 20 dias — o termo “substancial” é vago propositalmente
- Reação da China: se Pequim mantiver as cotas de exportação zeradas, a pressão de oferta persiste
- Demanda sazonal no hemisfério norte: o inverno se aproxima e eleva o consumo de óleo para aquecimento, que compete com o diesel nas refinarias
Para o empresário brasileiro, o sinal é de volatilidade continuada. O diesel no mercado internacional serve de referência para a paridade de importação que baliza os preços internos da Petrobras. Se a injeção de 100 milhões de barris não for suficiente para derrubar a cotação global abaixo de US$ 150 o barril, a pressão sobre a política de preços doméstica aumenta — justamente num ano de orçamento apertado e inflação de serviços resistente.
