A professora Denise Pires acaba de se tornar a primeira brasileira em oito décadas a ocupar a Diretoria-Geral Assistente para Ciências da Unesco. O anúncio partiu da Capes nesta quinta-feira (1º) e coloca o país no centro das decisões globais sobre ciência aberta, ética em inteligência artificial e sustentabilidade oceânica.
Mais do que um feito simbólico, a nomeação altera a geografia do poder científico multilateral. A pergunta que fica: como essa posição reverbera nos laboratórios, nas verbas de pesquisa e na formação de doutores no Brasil?
O cargo que ninguém ocupava desde 1946
A última vez que um brasileiro sentou nessa cadeira foi logo após a fundação da organização, no pós-guerra. Desde então, a área de Ciências — que gere programas de água, biodiversidade, redução de desastres e ética científica — foi liderada por europeus, asiáticos e africanos, mas nunca por um latino-americano.
Denise Pires assume em janeiro de 2027 para um mandato de quatro anos, renovável por mais quatro. A escolha passou por votação secreta do Conselho Executivo da Unesco, composto por 58 Estados-membros.
Perfil técnico, não político
Diferente de indicações anteriores, o currículo pesou mais que o alinhamento diplomático. Denise é oceanógrafa, doutora pela USP, com pós-doutorado no MIT e mais de 120 artigos indexados. Presidiu a Capes desde 2023, onde redesenhou editais de cooperação internacional e criou o programa “Ciência no Sul”, voltado a pesquisadores da América Latina e África.
Na Unesco, ela herdará orçamento bianual de US$ 1,2 bilhão para a área de Ciências — 18% do total da organização.
Três frentes de impacto imediato
- Ciência aberta: a brasileira já defendeu publicamente que dados financiados com dinheiro público devem ser livres. Espera-se que ela acelere a implementação da Recomendação sobre Ciência Aberta, aprovada em 2021 mas ainda travada em muitos países.
- Ética em IA: a Unesco lidera o primeiro marco regulatório global sobre inteligência artificial. Denise terá voto decisivo nas diretrizes que valerão para 193 nações.
- Década do Oceano: como especialista em ciências marinhas, ela comanda a agenda 2021-2030 — vital para o Brasil, que tem 7.400 km de costa e jurisdição sobre 5,7 milhões de km² de mar territorial.
O efeito nos editais e bolsas brasileiras
Historicamente, a presença de nacionais em postos-chave de organismos internacionais abre portas para pesquisadores do país. Entre 2010 e 2018, quando brasileiros presidiram a FAO e a OIT, projetos nacionais captaram 34% mais recursos multilaterais.
A Capes já sinalizou que usará a proximidade para negociar cotas prioritárias em programas como o “UNESCO-TWAS” (bolsas para cientistas do Sul Global) e o “Man and the Biosphere” (reservas da biosfera). Atualmente, o Brasil tem 7 reservas reconhecidas; a meta é chegar a 15 até 2030.
O que observar daqui pra frente
A posse em Paris marca o início, mas o teste real vem nos primeiros 100 dias. Denise precisará montar uma equipe diversa, negociar a reforma da governança da ciência aberta — travada por disputas de propriedade intelectual entre EUA, UE e China — e articular a conferência mundial sobre ética em IA prevista para março de 2027.
Para o empresário ou investidor em inovação, o sinal é claro: a agenda científica global passará a ter “sotaque brasileiro” nas próximas decisões sobre padrões de dados, regulação de algoritmos e financiamento climático. Acompanhar os relatórios trimestrais da Diretoria de Ciências da Unesco deixa de ser opcional — vira inteligência estratégica.
