Estudantes de uma escola pública no interior do Ceará transformaram resíduos de peixe e cana-de-açúcar em um biomaterial que regenera tecidos e remove 100% de corantes e óleos da água. A inovação custa centavos por uso e já tem validação de UFC e Embrapa. O próximo passo depende de uma vaquinha para levar a ciência a uma feira internacional.
O projeto nasceu no chão de uma escola de Cascavel, não em um laboratório corporativo. Agora, a equipe precisa de apoio para representar o Brasil na Mostratec, no Rio Grande do Sul.
Da feira livre para a fronteira da ciência
Nas ruas de Cascavel, escamas de peixe vão para o esgoto. Nos engenhos, o bagaço da cana vira montanha de resíduo. Dois problemas locais, uma pergunta simples: “por que não transformar isso em solução?”.
O Brasil produz 160 milhões de toneladas de bagaço de cana por ano. Na filetagem de pescado, 60% a 70% do peso vira descarte — mais de 400 mil toneladas anuais. A equipe da EEMTI Marconi Coelho Reis viu matéria-prima onde outros viam lixo.
Com orientação dos professores Guilherme Maciel e Francisco Augusto, os alunos Ana Clara e Carlos Vinícius desenvolveram um scaffold: matriz tridimensional porosa de biocelulose (cana) integrada a hidroxiapatita (escamas). O nome do projeto: CellScale.
Resultados que chamam a atenção da indústria
Testes conduzidos com apoio da UFC e da Embrapa entregaram números que raramente se veem em estágio inicial:
- Remoção de 100% do corante têxtil Azul de Metileno
- Remoção de 100% de óleo mineral contaminante
- Redução superior a 99,7% da cor aparente da água
- Redução de 98,04% da turbidez
- Reutilização estável por até 10 ciclos de filtragem
- Custo estimado: R$ 0,02 por aplicação
O material mantém desempenho em diferentes faixas de pH. Na área biomédica, a estrutura porosa rica em minerais e a alta retenção de água indicam potencial para curativos, regeneração tecidual e óssea.
Por que isso importa para o mercado
Um biomaterial 100% biodegradável, de origem residual, multifuncional e com custo centesimal quebra paradigmas de cadeia de suprimentos. A maioria dos curativos avançados e adsorventes industriais depende de insumos importados ou sintéticos de alto custo.
O Brasil tem a matéria-prima em escala industrial. A tecnologia nasceu em escola pública, com infraestrutura mínima. Imagine o que acontece quando esse ganho de escala encontra capital e engenharia de processo.
Validação internacional e histórico de vitórias
A Mostratec é a maior feira de ciências da América Latina. A etapa final ocorre em Novo Hamburgo (RS) no fim deste mês. Ser finalista já coloca o CellScale no radar de pesquisadores e investidores de 88 países.
Não é a primeira vez que a escola chega lá. A EEMTI Marconi Coelho Reis participou quatro vezes consecutivas da Regeneron ISEF — a maior feira de ciências e engenharia do mundo. Neste ano, conquistou primeiro lugar em uma categoria e quarto em outra.
Mas a presença na Mostratec 2026 exige passagens, hospedagem, transporte e alimentação para a equipe. Os custos são incompatíveis com a renda das famílias. A mobilização atual depende de vaquinha e rifas. A chave Pix para doações é (85) 98999-0009.
O que observar daqui para frente
A transição de laboratório escolar para piloto industrial exige três movimentos: proteção de propriedade intelectual, validação em escala relevante e parceria com indústria de base (farmacêutica, cosméticos, tratamento de efluentes).
Se o custo de R$ 0,02 por ciclo se mantiver em escala, o CellScale entra em uma janela competitiva rara: sustentabilidade com economia imediata. Para investidores e gestores de inovação, o sinal está dado — a ciência de base no Brasil está resolvendo problemas reais com recursos que o país joga fora.
