Pela primeira vez em sete décadas, duas mulheres comandam simultaneamente os postos máximos da maior feira literária a céu aberto da América Latina. A 72ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre tem Roseni Siqueira Kohlmann na presidência da Câmara-Riograndense do Livro e Heloisa Pires Lima no patronato — marco histórico que expõe transformações profundas na cultura e no mercado editorial brasileiro.
O evento ocupa 17 dias de programação com mais de 700 atividades gratuitas. Mas o simbolismo ultrapassa a grade de atrações.
A patrona que carrega 72 anos de espera
Heloisa Pires Lima é a primeira mulher negra — e apenas a segunda pessoa negra — eleita patrona desde a criação da feira, em 1952. Antropóloga, educadora e autora dedicada à literatura infanto-juvenil, sua trajetória reflete a urgência de reposicionar narrativas em um estado onde 21% da população se declara negra, segundo dados do IBGE, mas cuja presença histórica nos espaços de decisão cultural foi sistematicamente apagada.
O papel do patrono vai além da representação ceremonial. A figura sintetiza os valores que a entidade promotora deseja celebrar: formação de leitores, diversidade editorial e impacto social da leitura. A escolha de Heloisa sinaliza que a instituição reconhece, enfim, que não existe democratização do livro sem diversidade de quem escreve, edita e cura.
Literatura infantil não é “coisa de criança” — é infraestrutura
O foco de Heloisa na produção para crianças e jovens não é detalhe menor. Estudos recentes correlacionam o acesso precoce a livros diversos com indicadores de desenvolvimento cognitivo, empatia e desempenho escolar futuro. Para investidores e gestores públicos, a equação é direta: leitores formados na infância tornam-se profissionais mais preparados, consumidores críticos e cidadãos ativos.
Mas a patrona impõe uma condição inegociável: “não adianta incentivar a leitura com livros racistas.” A frase resume um debate que o mercado editorial ainda evita enfrentar com profundidade. Obras que reforçam estereótipos ou apagam identidades não formam leitores — formam exclusão.
O que muda na prática para o ecossistema do livro
- Editores ganham pressão concreta para diversificar catálogos e equipes de aquisição.
- Bibliotecas e escolas recebem referencial qualificado para revisar acervos e listas de leitura obrigatória.
- Patrocinadores passam a ter métricas de impacto social mais claras ao associar marcas a eventos com protagonismo representativo.
- Autores negros e indígenas encontram validação institucional para narrativas próprias, não apenas como “temas” de editais pontuais.
A presidência de Roseni Siqueira Kohlmann à frente da Câmara-Riograndense do Livro completa o movimento: pela primeira vez, a gestão executiva e a representação simbólica caminham juntas, ambas ocupadas por mulheres. Não é coincidência — é consequência de articulações de base que vêm pressionando o setor há anos.
O que observar daqui pra frente
A 72ª edição termina, mas o precedente permanece. O mercado editorial brasileiro fatura bilhões anualmente, mas ainda concentra decisões em grupos homogêneos. A Feira de Porto Alegre — patrimônio imaterial da capital gaúcha — acaba de provar que representatividade nos postos de poder não é “pauta identitária”: é estratégia de relevância cultural e sustentabilidade econômica.
Para quem investe em educação, cultura ou comunicação, o recado é claro: eventos que ignoram a diversidade na curadoria e na gestão perdem conexão com o público real do país. A próxima edição já nasce sob outra régua. A pergunta que fica é quantas outras feiras, bienais e conselhos editoriais vão demorar mais 72 anos para entender o óbvio.
