O dólar abriu esta sexta-feira (6) cotado a R$ 5,502, alta de 0,27% às 9h52, enquanto investidores seguram a respiração à espera do relatório de emprego americano. O número que sai nas próximas horas pode selar o destino dos juros nos EUA — e ditar o ritmo do real nas próximas semanas.
Na véspera, a moeda fechou a R$ 5,487 (+0,68%) e o Ibovespa recuou 0,81%, aos 166.191 pontos. O pregão foi de volatilidade pura, com ativos de emergentes sob pressão dupla: incerteza fiscal local e um terremoto vindo de Wall Street.
O choque que veio de Nova York
As eleições de meio de mandato nos EUA deram maioria democrata nas duas Casas do Congresso. O mercado leu o resultado como um freio potencial para a expansão da infraestrutura de inteligência artificial — setor que vinha sustentando as bolsas americanas.
O temor: democratas defendem regulações mais duras para data centers, o que elevaria custos e travaria novos projetos. A reação foi imediata e brutal:
- S&P 500: -4,16%, aos 7.368 pontos
- Dow Jones: -3,44%, aos 51.521 pontos
- Nasdaq: -5,52%, aos 24.315 pontos — maior queda entre os índices
“Anos de impulso do governo Trump para a IA podem ser reduzidos”, resumiu Ipek Ozkardeskaya, analista sênior do Swissquote Bank. O contágio global atingiu em cheio o real e a bolsa brasileira.
O tabuleiro doméstico: Lula, economistas e a promessa vazia
Enquanto o exterior sangrava, Lula iniciou na quinta (5) uma rodada de conversas com economistas e empresários sobre a trajetória fiscal. O primeiro encontro reuniu nomes próximos: Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Aloísio Mercadante, Guido Mantega, entre outros.
Após a reunião, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, voltou a prometer “resultados melhores” para as contas públicas nos próximos anos. Medidas concretas? Nenhuma anunciada.
Dias antes, a simples possibilidade de uma proposta do economista André Lara Resende chegar ao presidente assustou analistas. A ideia: criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, atrelar a Selic ao PIB potencial e cortar a taxa para 7,5% em 12 meses. O Planalto negou a reunião, mas o ruído ficou.
Copom trava a Selic e sinaliza: “vamos esperar”
Na quarta (4), o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano por unanimidade, interrompendo o ciclo de cortes. Retirou do comunicado a menção à “flexibilização” — sinal claro de que a taxa deve ficar parada por tempo indeterminado.
A justificativa: incertezas elevadas, expectativas de inflação desancoradas e atividade desacelerando mais que o previsto. A decisão veio no olho do furacão pós-eleição: na semana, o Ibovespa tombou 18% (maior queda desde 2020), o dólar saltou 9,18% (maior alta em 18 anos) e juros futuros subiram mais de 2%.
O que o Focus revela sobre a desconfiança
No primeiro Boletim Focus após a eleição, as projeções pioraram:
- IPCA 2026: 5,22% (era 5,19%)
- Selic fim de 2026: 13,50% (era 13,25%)
- Selic fim de 2027: 12,50% (era 11,75%)
“A desancoragem puxa expectativas para cima, inclusive no horizonte relevante de 2028. Para convergir a 3%, o BC precisa ser contracionista — logo, menos espaço para cortar juros”, explica Matheus Spiess, da Empiricus Research.
Leonel Oliveira Mattos acrescenta: o Copom não citou explicitamente o efeito Lula nas expectativas, mas busca preservar credibilidade sinalizando postura conservadora diante de deterioração inflacionária.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o preço do dólar nas próximas sessões: o payroll americano de hoje (se vier forte, adia cortes do Fed e fortalece o dólar global), a concretização — ou não — de medidas fiscais críveis no Brasil, e a ata do Copom na terça-feira, que deve detalhar o tamanho da cautela do BC. Quem tem exposição a câmbio ou juros longos deve monitorar a curva de DI: a inclinação entre vértices curtos e longos revela o prêmio de risco que o mercado embute para a incerteza fiscal. A próxima semana promete ser decisiva.
