Donald Trump declarou guerra à desvalorização das ações de tecnologia. Em publicação direta nas redes sociais, o presidente classificou a inteligência artificial como “ouro” e prometeu respaldo total a estados que apostarem na expansão do setor. A fala chega horas depois de uma sangria que derrubou as sete maiores empresas americanas em até 17% num único pregão.
O mercado já vinha frágil. A vitória democrata nas eleições de meio de mandato apenas puxou o gatilho.
O que Trump disse — e o que não disse
“Como presidente, sou 100% a favor da Superinteligência (SI) e trabalharei com os muitos estados dos EUA que querem se tornar RICOS ao tê-la”, escreveu Trump. “Eles são OURO, e só uma liderança tola vai dizer ‘NÃO’ às riquezas que trazem!”
A retórica é agressiva, mas o texto não detalha instrumentos concretos: nem linhas de crédito, nem isenções fiscais, nem decretos executivos. A promessa resume-se a “trabalhar com” governadores alinhados.
Por que as ações despencaram agora
Dois vetores se cruzaram na terça-feira (3) e na sexta (6):
- Eleições de meio de mandato: a ampliação da bancada democrata reacendeu o temor de regulações mais duras para data centers — infraestrutura que consome energia e água em escala industrial.
- Valuation esticado: segundo Celso Camilo, doutor em IA e professor da UFG, “o mercado de IA já vinha frágil”. A eleição foi gatilho, não causa.
O risco imediato não está no Congresso, mas nos estados. Licenciamento ambiental, concessão de energia e eventuais moratórias locais podem travar obras de data centers antes de qualquer lei federal.
O tsunami asiático
A onda de venda não parou em Nova York. Na Ásia, onde concentram-se as maiores fábricas de chips do mundo, o contágio foi violento:
- Nikkei (Japão): -5,96%
- Kospi (Coreia do Sul): -6,02% — chegou a -8,55% no intradia, acionando circuit breaker de 20 minutos
- SK Hynix: -10,4%
- Samsung Electronics: -6,4%
- SoftBank: -11%
- TSMC (Taiwan): -4,7%
A lógica é direta: se Big Techs desacelerarem capex em IA, a demanda por semicondutores de ponta cai em cascata.
Magnificent Seven: ninguém escapou
Em Wall Street, o índice de semicondutores da Filadélfia tombou 12,2%. Todas as “Sete Magníficas” fecharam no vermelho:
- Tesla: -10,8%
- Nvidia: -9,3%
- AMD: -17,3% — a maior queda do grupo
O recuo da AMD chama atenção: a empresa é segunda maior fornecedora de GPUs para data centers, atrás apenas da Nvidia. O mercado precifica uma revisão profunda de expectativas de receita.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o próximo capítulo:
- Ações estaduais: governadores de Texas, Arizona e Nevada já disputam data centers. Quem oferecer energia barata e licenciamento rápido leva a frente.
- Guidance do Q4: as big techs reportam nas próximas semanas. Qualquer sinal de corte em capex 2025 amplifica a correção.
- Política monetária: juros altos encarecem o financiamento de infraestrutura de longa maturação. O Fed não deu sinais de afrouxamento imediato.
Para o investidor, a lição é clara: a narrativa de “IA como ouro” colide com a física de data centers — energia, água, licenciamento, capital. Quem separar hype de execução operacional sai na frente.
