O Inteli, instituto fundado pelos sócios do BTG Pactual André Esteves e Roberto Sallouti, completa cinco anos beirando a sustentabilidade financeira com faturamento de R$ 70 milhões e um detalhe raro no ensino superior de elite: metade dos 700 alunos de graduação não paga mensalidade. Como uma faculdade sem fins lucrativos, com tíquete médio de R$ 7.800, consegue equilibrar as contas enquanto forma engenheiros e gestores disputados pelo mercado?
O modelo que quebrou a regra do “cliente aluno”
A CEO Maira Habimorad resume a filosofia em uma frase: “Aqui você não é cliente”. A instituição rejeita a lógica de consumo que domina o setor privado. Se o estudante discorda da metodologia, a porta está aberta. Essa rigidez, segundo a executiva, só é possível porque não há pressão por lucro — o aporte inicial de R$ 200 milhões dos fundadores e doações contínuas para bolsas blindam a operação.
O resultado aparece nos números: 60% da receita vem da graduação (engenharia de computação, software, ciência da computação, sistemas de informação e administração com ênfase em tecnologia) e 40% de MBAs e educação executiva. O campus na Cidade Universitária, em São Paulo, comporta 960 alunos; hoje operam com 712.
Por que a engenharia de produção é a próxima aposta
Habimorad confirma estudos para expandir a área física e abrir novos cursos. O alvo imediato é engenharia de produção, descrita como “bem transversal tanto na área técnica quanto na de negócios”. Na mira de médio prazo, setores onde o Brasil já é potência global: energia e agronegócio.
A lógica é clara: formar profissionais que falem a língua da tecnologia e a do resultado financeiro. “Eu vejo uma fusão desses dois perfis. Quem entende de tecnologia tendo que entender de serviço, de negócios, de resultado e vice-versa”, afirma a CEO.
Diversidade real: quando 50% muda o jogo
O programa de bolsas — custeado por doadores que “adotam” vagas e acompanham os alunos — desenha um perfil atípico para faculdades de tecnologia:
- 371 bolsistas (52% do total), vindos de 115 municípios e todos os estados;
- Quase 30% mulheres, triplicando a média de 10% do setor;
- 25% alunos pretos e pardos, incluídos via recorte socioeconômico.
Habimorad argumenta que volume resolve inclusão: “Se você tem 5% de bolsistas, eles ficam à margem. Com 50%, aquilo é feito para todo mundo”. A convivência é mediada por comunicação não violenta e alunos formados como mediadores de conflitos.
IA na sala de aula: a resposta da oralidade
O avanço da inteligência artificial forçou uma mudança na avaliação. A saída encontrada: atividades realizadas em sala, com sustentação oral ao vivo. O objetivo vai além de evitar cola — é treinar a capacidade de argumentar, decidir e liderar em tempo real.
“A conquista e a preservação do Estado de Direito é algo que toda liderança deveria estar preocupada”, diz Habimorad, conectando formação técnica a responsabilidade ética e cidadã.
O que observar daqui para frente
Três movimentos merecem atenção de quem contrata, investe ou desenha estratégias de talento:
- Expansão curricular: engenharia de produção, energia e agronegócio podem abrir frentes de receita e alinhamento com a economia real;
- Formato híbrido obrigatório: a defesa de oralidade e projetos práticos sinaliza tendência irreversível — diplomas que não provarem competência aplicada perdem valor;
- Escala do modelo de bolsas: se a receita de executivos mantiver o ritmo, o Inteli pode provar que excelência técnica e diversidade profunda não são trade-off, mas reforço mútuo.
A primeira turma se formou em 2023 com 138 alunos. O “filme” — não a foto — dos próximos cinco anos dirá se o experimento vira referência nacional ou permanece caso isolado de capital abundante.
