Economia

Brasil define minerais críticos: veja a lista que vai ditar os próximos bilhões em investimentos

Mapa do Brasil destacando 30 minerais críticos em três níveis de prioridade para investimentos estratégicos
Nova classificação do CIMCE define 30 minerais críticos que guiarão bilhões em investimentos no Brasil

O governo federal acaba de publicar a bússola que vai orientar onde o capital — público e privado — deve fluir nos próximos anos. O Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE) aprovou, na quinta-feira (5), a classificação oficial de 30 substâncias divididas em três níveis de prioridade. A decisão aciona, de imediato, mecanismos de triagem de investimentos e proteção de soberania em operações societárias consideradas estratégicas.

Para o empresário do setor mineral, a mensagem é direta: quem não estiver alinhado a essa lista ficará fora das linhas de financiamento prioritárias e dos incentivos de agregação de valor no país.

O que muda na prática a partir de agora

A inclusão de um mineral no rol não é apenas simbólica. Ela dispara gatilhos regulatórios concretos:

  • Triagem de investimentos estrangeiros em projetos sensíveis — com poder de veto em casos de risco à soberania;
  • Prioridade no acesso a linhas de crédito do BNDES e fundos setoriais para beneficiamento local;
  • Regras de transição para projetos já em andamento, evitando insegurança jurídica;
  • Estímulo à mineração urbana (reciclagem de resíduos eletrônicos e baterias) como fonte complementar.

Em resumo: a lista funciona como um termômetro de onde o Estado quer ver fábrica, não apenas cava.

Prioridade alta: o coração da transição e da defesa

Nove substâncias concentram o maior apetite geopolítico e tecnológico. São elas que alimentam baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e programas nucleares:

  • Terras raras
  • Grafita
  • Lítio
  • Níquel
  • Cobalto
  • Cobre
  • Manganês
  • Silício
  • Urânio

O lítio e as terras raras, em particular, já atraem anúncios de gigafábricas no Vale do Jequitinhonha (MG) e no Sul da Bahia. O urânio, por sua vez, recoloca o programa nuclear brasileiro no radar de parcerias internacionais.

Prioridade média: gargalos industriais e agrícolas

Onze minerais entram no radar por sua relevância na siderurgia de alta liga, na fertilização do solo e na produção de ligas especiais para aeroespacial e defesa:

  • Tungstênio, cromo, vanádio, tântalo, titânio
  • Fosfato, potássio, enxofre

O destaque vai para fosfato e potássio. O Brasil importa cerca de 85% do potássio que consome na agricultura. Qualquer avanço em jazidas como Autazes (AM) ou Seixas (PB) altera a balança comercial do agronegócio.

Prioridade baixa: volume, mas com olhar estratégico

Dez substâncias completam a lista. Não significa que sejam irrelevantes — o nióbio, por exemplo, responde por 90% da oferta mundial e é insubstituível em aços de alta resistência. O ferro e o alumínio sustentam a balança comercial mineral. A classificação “baixa” reflete menor risco de abastecimento ou maior maturidade das cadeias produtivas:

  • Nióbio, estanho, ferro, zinco, ouro
  • Magnésio, molibdênio, tório, alumínio, grupo da platina

Mas atenção: o nióbio já tem legislação específica de proteção. Qualquer movimento societário envolvendo a CBMM passa, obrigatoriamente, pelo crivo do Conselho de Defesa Nacional.

Como o Conselho vai operar daqui para frente

Esta foi a primeira reunião do pleno do CIMCE, colegiado que reúne Ministérios da Fazenda, Relações Exteriores, Ciência e Tecnologia, Defesa, Agricultura, além de representantes da indústria, academia e sociedade civil. Dois pontos definidos na sessão merecem monitoramento:

  • Regimento interno — vai ditar prazos, quóruns e formas de participação de entes subnacionais;
  • Atualização periódica da lista — a lei prevê revisão a cada dois anos ou sempre que houver mudança relevante de cenário geopolítico ou tecnológico.

O Ministério de Minas e Energia afirmou que a lista “entrega ao setor produtivo seu ativo mais valioso: a previsibilidade”. Em linguagem de mercado: reduz o prêmio de risco regulatório nos term sheets de novos projetos.

O que observar nos próximos 180 dias

Três movimentos vão sinalizar se a política sai do papel:

  1. Editais de pesquisa e lavra da ANM priorizando áreas com ocorrências de prioridade alta;
  2. Linhas do BNDES com spreads diferenciados para beneficiamento de lítio, terras raras, grafita e fosfato;
  3. Primeiras decisões de triagem de investimento estrangeiro em ativos de nióbio, urânio e terras raras — o teste real do poder de veto soberano.

Empresas que já operam no Brasil devem mapear em qual classe seus ativos se enquadram e preparar compliance societário para eventuais análises do Conselho. Novos entrantes precisam ler a lista como um roadmap de onde o Estado quer ver capital alocado — e onde a porta estará mais aberta.