A demanda por óleos vegetais na mistura com diesel disparou 122% em apenas quatro anos, puxada por conflitos geopolíticos e incertezas no fornecimento de petróleo. O impacto direto já aparece no bolso: desde 2020, o óleo de soja acumula alta de 145% ao consumidor, o dobro da inflação média dos alimentos.
Mas o que está por trás dessa corrida e até onde ela vai?
Três países concentram a explosão do consumo
Tailândia, Brasil e Estados Unidos devem consumir 34,3 milhões de toneladas de óleo vegetal como combustível em 2026. Se a União Europeia for incluída — com consumo estagnado em 6 milhões de toneladas —, o total salta para 40,3 milhões. Em 2020, esse volume era menos da metade.
A aceleração não veio do interesse ambiental. Veio da guerra do Irã, que estrangulou o fornecimento de petróleo e forçou governos a elevarem a mistura obrigatória como medida de segurança energética.
O mapa das misturas obrigatórias
Cada país definiu seu ritmo, mas a direção é a mesma:
- Indonésia: adotou B50 (50% de óleo de palma) em julho; consumo deve atingir 17,4 milhões de toneladas, ante 7,2 milhões em 2020
- Malásia: elevou para até 20%
- Tailândia: fixou em 20%, porém opcional
- Brasil: caminha para B16 em março; óleo de soja sobe de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas
- Estados Unidos: volume salta de 5 para 8,1 milhões de toneladas com mudanças recentes no sistema energético
Produtores ganham, importadores sofrem
A elevação da mistura injeta demanda extra na cadeia produtiva. Nos EUA, o uso de óleo de soja para biodiesel cresceu 913% em 15 anos. No Brasil, a alta foi de 383% no mesmo período. A soja responde: a produção mundial saltou de 261 milhões de toneladas (safra 2010/11) para 443 milhões projetadas em 2026/27, segundo o USDA.
O Brasil sozinho deve colher 182 milhões de toneladas nessa safra, contra 75 milhões em 2011, de acordo com a Conab.
Do outro lado, a Índia importa cerca de 16 milhões de toneladas de óleos vegetais por ano para alimentação. O novo cenário aperta ainda mais o gargalo de abastecimento interno.
Produção mundial de óleos: quem lidera
O mercado global de óleos vegetais já atinge 243 milhões de toneladas. A concentração é alta:
- Óleo de palma: 79 milhões de toneladas
- Óleo de soja: 75 milhões de toneladas
- Canola: 38 milhões de toneladas
- Girassol: 24 milhões de toneladas
A conta chega na gôndola
Dados da Fipe mostram que, entre 2020 e agora, a inflação média dos alimentos ficou em 73%. O óleo de soja subiu 145%. Não foi só a demanda por biodiesel: quebras de safra, redução dos estoques mundiais e aceleração dos preços internacionais formaram a tempestade perfeita.
Mas o biodiesel virou um piso de demanda que não existia antes. Mesmo em anos de safra cheia, o consumo obrigatório garante escoamento.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo ciclo: a implementação efetiva do B16 no Brasil em março, a manutenção do B50 na Indonésia e a evolução dos estoques globais de soja. A macaúba — com potencial de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja — surge como alternativa de longo prazo, mas ainda em fase inicial.
Para o empresário do setor, o sinal é claro: a mistura obrigatória deixou de ser política ambiental para virar instrumento de segurança energética. E isso muda a precificação de risco de toda a cadeia.
