Ciência

O ‘DNA do ouro’ que pode derrubar o garimpo ilegal na Amazônia…

Cientistas em laboratório de geoquímica forense analisam amostras de ouro para rastrear origem e combater garimpo ilegal na Amazônia
Novo laboratório da Polícia Federal usa "impressão digital geoquímica" para identificar origem do ouro e combater garimpo ilegal na Amazônia.

A Polícia Federal ativou nesta terça-feira (3) um laboratório capaz de identificar a origem exata de cada grama de ouro extraído no Brasil. A tecnologia funciona como uma impressão digital geoquímica e promete cortar o oxigênio financeiro do garimpo ilegal na Amazônia. Mas será que a ciência consegue vencer a logística do crime organizado?

Como funciona o “raio-X” do minério

Instalado no Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília, o Laboratório de Geoquímica Forense para Rastreabilidade Mineral analisa a composição química e isotópica das jazidas. Cada depósito possui uma assinatura única — teores de elementos traço, razões isotópicas de chumbo e enxofre — que permanece no metal mesmo após a fundição.

Na prática, uma amostra de ouro apreendido em São Paulo ou exportada para o exterior pode ser comparada ao banco de dados nacional. Se o “DNA” não bater com uma área licenciada, a origem é ilegal. A prova é técnica, incontestável e admissível em processos criminais e administrativos.

O impacto direto na cadeia do ouro sujo

Hoje, o maior entrave à fiscalização não é encontrar o garimpo, mas provar que o ouro comercializado saiu dali. O novo laboratório inverte esse jogo: transfere o ônus da prova para o comprador e o exportador. Joalherias, trading companies e bancos terão de demonstrar a procedência lícita do metal sob pena de responder por receptação qualificada e lavagem de dinheiro.

Essa pressão atinge o coração do modelo de negócio das organizações criminosas: a lavagem do ativo. Sem a capacidade de “esquentar” o ouro, o garimpo ilegal perde valor de mercado e, consequentemente, capacidade de financiar máquinas, combustível e logística pesada.

Números que dimensionam a aposta

O investimento não é simbólico. O Programa Ouro Alvo, guarda-chuva da iniciativa, conta com aporte de R$ 318,5 milhões do Fundo Amazônia, geridos pelo BNDES. A estrutura envolve:

  • Quatro eixos de atuação integrada (inteligência, fiscalização, repressão e rastreabilidade);
  • Parceria operacional com PRF, Força Nacional e os nove estados da Amazônia Legal;
  • Aquisição de espectrômetros de massa, equipamentos para análise de mercúrio e infraestrutura de armazenamento de amostras de referência.

Além da apreensão: mirando o financiador

Autoridades envolvidas na inauguração foram uníssonas: o alvo não é o garimpeiro de base, mas o capital que move a retroescavadeira. A rastreabilidade permite mapear fluxos financeiros, identificar “laranjas” no comércio de ouro e subsidiar investigações de lavagem de ativos em escala nacional e transfronteiriça.

Historicamente, operações de repressão física (destruição de equipamentos, prisões em flagrante) geram efeito temporário. A novidade aqui é a perenidade da prova científica: um laudo de origem mineral vale por anos e pode ser reutilizado em dezenas de inquéritos distintos.

O que observar nos próximos meses

A eficácia real dependerá de três variáveis que ainda estão em construção: a velocidade de alimentação do banco de dados de jazidas licenciadas (hoje incompleto), a adesão dos órgãos estaduais de meio ambiente na fiscalização de pontos de compra e a resposta do mercado internacional — que já exige certificação de origem para evitar sanções ESG.

Se a integração entre a base geoquímica federal e as autuações estaduais funcionar, o Brasil poderá, pela primeira vez, apresentar ao mundo um mecanismo de certificação de origem com lastro pericial, e não apenas documental. Para investidores e empresas do setor mineral, o recado é claro: a due diligence sobre a cadeia de fornecimento de ouro deixou de ser reputacional e virou risco jurídico imediato.