A demanda por óleos vegetais como combustível mais que dobrou em três anos, puxada por conflitos geopolíticos e a busca por segurança energética. O reflexo direto já aparece no bolso: o óleo de soja subiu 145% desde 2020, contra 73% da inflação geral dos alimentos.
O movimento não é temporário. Com mandatos de mistura mais agressivos no Brasil, Indonésia e Estados Unidos, a pressão sobre a oferta global de oleaginosas deve se intensificar nos próximos ciclos.
O tamanho do salto nos principais mercados
Apenas Tailândia, Brasil e Estados Unidos devem consumir 34,3 milhões de toneladas de óleo vegetal em biodiesel neste ano — um avanço de 122% frente a 2020. Se a União Europeia entrar na conta, o volume salta para 40,3 milhões de toneladas.
Cada país acelera por motivos próprios, mas o vetor comum é a redução da dependência do petróleo. A guerra no Irã e a volatilidade do barril forçaram governos a elevar a mistura obrigatória como política de Estado.
Quem puxa a fila e quais são as metas
- Indonésia: adotou B50 (50% de óleo de palma) em julho; consumo deve atingir 17,4 milhões de toneladas, ante 7,2 milhões em 2020.
- Brasil: caminha para B16 em março; uso de óleo de soja salta de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas.
- Estados Unidos: mudanças no sistema energético levam o volume de 5 para 8,1 milhões de toneladas.
- Malásia e Tailândia: mistura de até 20% (opcional nos tailandeses).
O efeito cascata beneficia produtores de soja e palma, mas cria um gargalo para importadores líquidos de óleo vegetal.
Soja avança, mas a conta não fecha para todos
Nos últimos 15 anos, o consumo de óleo de soja para biodiesel explodiu 913% nos EUA e 383% no Brasil. A produção global da oleaginosa acompanhou: saiu de 261 milhões de toneladas na safra 2010/11 para 443 milhões projetados em 2026/27, segundo o USDA.
O Brasil deve responder por 182 milhões de toneladas nesse horizonte, contra 75 milhões em 2011. Ainda assim, a disputa entre tanque e prato aperta a oferta disponível para alimentação.
O caso indiano e o risco de desabastecimento
A Índia importa cerca de 16 milhões de toneladas de óleos vegetais por ano para consumo humano. Com os grandes exportadores destinando volumes crescentes ao biodiesel, o país asiático enfrenta risco real de aperto na disponibilidade e alta de preços internos.
Essa tensão geopolítica-comercial tende a sustentar cotações firmes no mercado internacional, repassando custos para toda a cadeia.
Produção de óleos: palma e soja dominam
O mundo produz hoje 243 milhões de toneladas de óleos vegetais. A palma lidera com 79 milhões, seguida de perto pela soja com 75 milhões. Canola (38 milhões) e girassol (24 milhões) completam o quadro, mas sem escala para preencher lacunas de curto prazo.
Alternativas como a macaúba — com potencial de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja — ainda estão em fase de expansão comercial e não alteram o balanço imediato.
Inflação no supermercado: o óleo pesa mais
Dados da Fipe mostram que, desde 2020, o óleo de soja acumula alta de 145%, quase o dobro da inflação média dos alimentos (73%). O período coincidiu com quebra de safra, redução de estoques mundiais e aceleração da demanda externa pela oleaginosa.
A parcela do biodiesel nessa equação cresce a cada novo mandato de mistura aprovado.
O que observar daqui para frente
A implementação do B16 no Brasil em março é o próximo gatilho de curto prazo. No médio prazo, a expansão da área de soja na América do Sul e o ritmo de plantio de palma no Sudeste Asiático ditarão se a oferta acompanha a demanda obrigatória. Para o empresário do setor de alimentos, a estratégia de hedge e diversificação de fornecedores deixa de ser opcional e vira condição de competitividade.
