A Comissão Especial da Câmara de Vereadores de São Paulo arquivou o pedido de impeachment contra o prefeito Ricardo Nunes por irregularidades no transporte público durante o segundo turno das eleições de 2026. A decisão divide opiniões e levanta dúvidas sobre o real impacto da frota reduzida no processo eleitoral.
Cinco parlamentares votaram pelo arquivamento, enquanto dois — autores da denúncia — defenderam a continuidade do processo. O placar expõe uma fissura política que vai além do caso concreto.
O que os números mostram no dia da votação
Segundo a denúncia, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) determinou a circulação de 100% da frota em 25 de outubro. Na prática, apenas 70% dos veículos estavam nas ruas. O déficit de 30% concentrou-se em horários de pico, quando trabalhadores se deslocavam para os colégios eleitorais.
Os vereadores Luana Alves (Psol) e Hélio Rodrigues (PT) argumentam que a redução não foi uniforme pela cidade. Bairros periféricos teriam sido os mais afetados, o que configuraria tentativa de manipulação eleitoral, não falha logística.
A defesa da prefeitura e o parecer do relator
A gestão municipal nega prejuízo aos eleitores. Imagens de terminais e corredores de ônibus mostram baixo fluxo de passageiros, indicando que a oferta superava a demanda. Para o relator, Major Palumbo (PP), os fatos ocorreram dentro das normas eleitorais e não demonstram infração do prefeito.
Palumbo defende que eventuais irregularidades devem ser analisadas pela Justiça Eleitoral, não pela Câmara. O argumento técnico prevaleceu sobre o político na votação final.
O cenário nacional: não foi caso isolado
Relatos de frota reduzida surgiram em outras capitais, como Salvador. A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva denunciou restrições em nove estados e pediu ao TSE a prorrogação do horário de votação até as 19h.
O ministro Cristiano Zanin, do STF, atendeu ao pedido — que também partiu da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), citando chuvas fortes em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A votação foi estendida em locais onde as urnas ainda não haviam sido fechadas.
- Frota determinada pelo TRE-SP: 100%
- Frota efetivamente circulante: 70%
- Votos pelo arquivamento: 5 vereadores
- Votos pela continuidade: 2 vereadores
Por que a decisão não encerra o debate
O arquivamento na esfera legislativa não impede investigações na Justiça Eleitoral. A denúncia de crime eleitoral permanece viva e pode gerar consequências futuras, incluindo inelegibilidade, se comprovado dolo na redução da frota.
Além disso, o episódio expõe a fragilidade do planejamento de mobilidade em dias de eleição. A dependência de decisões judiciais de última hora revela ausência de protocolo consolidado entre Executivo municipal e TRE.
O que observar daqui para frente
Empresários e gestores públicos devem monitorar dois movimentos: a tramitação de eventuais ações na Justiça Eleitoral contra a prefeitura e a elaboração de normas mais rígidas para garantia de transporte em pleitos futuros. A relação entre mobilidade urbana e acesso ao voto deixou de ser detalhe operacional para se tornar variável estratégica — e jurídica — nas próximas eleições.
