A liquidante do Banco Master, EFB Regimes Especiais, acionou a Justiça americana para obrigar Martha Graeff a depor sob juramento e entregar documentos que conectem seu patrimônio ao do ex-noivo Daniel Vorcaro. A intimação, protocolada no Tribunal de Falências da Flórida, marca a primeira vez que a empresária é formalmente alcançada pelo processo que apura o destino de bilhões do banco liquidado.
Ela não é ré. Foi chamada como testemunha sob a Regra 2004 — instrumento que permite ao administrador judicial interrogar qualquer pessoa com informações sobre os ativos do devedor. O depoimento está marcado para 8 de dezembro em Miami; os papéis devem ser entregues até 30 de novembro.
O que o liquidante exige dela
O pedido cobre janeiro de 2018 até hoje e mira bens diretos ou indiretos: imóveis, carros, obras de arte, joias, relógios. Também aponta para estruturas de blindagem — laranjas, trusts, empresas de fachada. A lista de documentos requisitados é extensa:
- Apólices de seguro, contratos de consignação e venda, fichas cadastrais
- Extratos bancários e rastreamento de origem e destino de pagamentos
- Registros da Graeff Holdings LLC, aberta na Flórida em setembro de 2023
- Comprovação de serviços prestados ao ecossistema Master
A empresa aparece no registro estadual com Graeff como administradora, mas a legislação da Flórida não obriga a revelar os sócios de uma LLC — o que dificulta saber quem realmente controla a estrutura.
A cobertura em Surfside e o rastro canadense
A intimação foi endereçada a uma cobertura de luxo em Surfside, ao norte de Miami Beach. O imóvel, comprado por US$ 43,9 milhões, está em nome da G5C Capital Corporation, constituída em Ontário, Canadá, um dia antes da aquisição. Registros públicos não identificam os donos da G5C nem mostram vínculo direto com Vorcaro ou com o Master.
Esse endereço, no entanto, coloca Graeff fisicamente no epicentro da investigação patrimonial nos EUA. A proximidade geográfica com os ativos em disputa reforça a relevância do depoimento dela.
O jato, o prefixo e a negociação do trust
Paralelamente, a EFB briga na Justiça americana para reter cerca de US$ 42 milhões da venda de um Gulfstream G700, prefixo PS-MGG — iniciais de Martha Gonçalves Graeff. O liquidante sustenta que a aeronave foi comprada com recursos do banco.
Mensagens vazadas em abril mostram Vorcaro sugerindo que bens fossem transferidos para o nome da então namorada, incluindo a abertura de um trust registrado nela. Meses antes, ele havia fechado a compra de uma mansão na Sabal Palm Road por mais de US$ 85 milhões (R$ 490 milhões na cotação da época).
Quem mais está na mira
A intimação a Graeff segue o mesmo roteiro usado contra Bradesco, Itaú e empresas que fizeram negócios com Vorcaro. A lista de 18 pessoas e empresas inclui:
- Antonio Carlos Freixo Júnior (delator nas investigações brasileiras)
- Maurício Quadrado e Luiz Antonio Bull (sócios e ex-diretores do Master)
- Titan Capital Holding (veículo de Vorcaro no exterior)
O processo nos EUA foi iniciado logo após a liquidação do Master pelo Banco Central, em novembro de 2024. Desde então, o liquidante obteve autorização para rastrear e buscar ativos do devedor em território americano.
O que Graeff já disse publicamente
Em abril, após o vazamento das conversas com Vorcaro, a empresária declarou ter sido “arrastada para um lamaçal”. Afirmou que seu patrimônio “é idêntico ao de dois anos atrás” e negou ter ganho mansão, carro ou barco. Disse também não ser investigada nem acusada.
Seu advogado, Lucio Constantino, afirmou nesta terça que ela ainda não foi formalmente intimada e que sempre esteve à disposição das autoridades.
O que observar daqui para frente
Se Graeff comparecer e colaborar, o depoimento de 8 de dezembro pode abrir caminho para o bloqueio ou recuperação de ativos ainda não mapeados. Se contestar o pedido ou pedir anulação, o processo ganha mais uma disputa processual — o que alonga prazos, mas não impede que o liquidante use outras vias para obter as mesmas informações.
Para quem acompanha o desdobramento da liquidação do Master, três pontos merecem atenção nas próximas semanas: a efetiva entrega dos documentos até 30 de novembro, a realização do depoimento em Miami e eventuais pedidos de extensão da Regra 2004 a outros nomes ligados à Graeff Holdings ou à G5C Capital. Cada passo desse quebra-cabeça patrimonial reduz a margem de manobra para ocultação de recursos.
