Economia

Latam lucra US$ 441 mi, mas combustível esconde risco bilionário

Aeronave LATAM decolando com gráfico de lucro e barril de petróleo ao fundo
LATAM lucra US$ 441 mi no 3T26, mas alta de 52% no QAV pressiona margens futuras

O Grupo Latam fechou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de US$ 441 milhões, alta de 16,3% na comparação anual. O resultado parece robusto, mas carrega um asterisco de meio bilhão de dólares que muda a leitura do balanço. Entender essa conta é essencial para quem projeta o setor aéreo nos próximos meses.

O choque invisível que comeu a margem

O preço médio do QAV (querosene de aviação) disparou 52,1% frente ao mesmo período de 2025. Na prática, isso se traduziu em um impacto negativo de US$ 520 milhões no resultado da companhia.

Mesmo com a receita operacional saltando 18,4% para US$ 4,567 bilhões, a margem operacional ajustada caiu de 18,1% para 12,5%. O Ebitda ajustado atingiu US$ 1,095 bilhão, mas a eficiência operacional está sendo testada no limite pelo custo do combustível.

Por que a empresa segue otimista mesmo com a conta alta

Para o CEO Jerome Cadier, a resiliência vem de uma equação simples: produto atrativo, base de clientes fiel e uma estrutura de custos enxuta herdada da reestruturação recente. A companhia consegue manter a ocupação alta enquanto controla despesas unitárias, algo que os concorrentes ainda perseguem.

Essa solidez permitiu manter a projeção de receita total para 2026 entre US$ 17,6 bilhões e US$ 17,8 bilhões, com Ebitda ajustado estimado entre US$ 3,9 bilhões e US$ 4,05 bilhões — assumindo barril a US$ 180 no quarto trimestre.

O recuo no mercado doméstico: sinal de alerta ou ajuste fino?

Apesar do lucro trimestral, a Latam reduziu a projeção de crescimento no Brasil. A faixa esperada para o mercado doméstico passou de 8%–9% para 7,5%–8,5%. No ponto médio, representa uma desaceleração de meio ponto percentual na malha da empresa.

O movimento reflete cautela com a demanda local e a necessidade de equilibrar oferta diante de custos dolarizados. Cerca de 60% dos custos das aéreas no país são atrelados ao dólar, o que amplifica qualquer ruído cambial.

Três variáveis que vão ditar o ritmo de 2027

Cadier elencou os pilares de risco para o próximo ano. Não há surpresas, mas a convergência deles preocupa:

  • Petróleo: a expectativa é de preços elevados sustentados, mantendo o QAV pressionado;
  • Câmbio: volatilidade contínua afeta diretamente arrendamento, manutenção e combustível;
  • Reforma tributária e fim da escala 6×1: impactos diretos na folha e na precificação de serviços terceirizados.

O efeito cascata da nova escala de trabalho

A transição da escala 6×1 para 5×1 dos aeroviários — homologada pelo TST em fevereiro — exige recomposição de equipes em solo. Mecânicos, atendentes de call center e pessoal de rampa terceirizados terão regimes ajustados.

A preocupação imediata é a velocidade dessa adaptação. A malha de fim de ano, já vendida para Natal e Réveillon, não pode sofrer desfalques operacionais. A execução dessa mudança sem rupturas será um teste de gestão crítico no curto prazo.

O que observar daqui para frente

O balanço prova que a Latam sabe navegar em mar revolto, mas o combustível segue como variável dominante. Investidores e gestores devem monitorar: a capacidade de repassar custos ao passageiro sem perder demanda, o desenrolar cambial no primeiro semestre de 2027 e a implementação prática das novas regras trabalhistas nos aeroportos. A margem de 12,5% é o novo piso a ser defendido.