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Guerra, inflação e IA: o que realmente decide o voto nas eleições de meio de mandato nos EUA

Capitólio dos EUA ao amanhecer com urna de votação e gráficos de inflação, simbolizando eleições de meio de mandato sob tensão econômica e geopolítica
O controle do Congresso americano será decidido em novembro sob pressão de guerra, inflação persistente e ansiedade com a IA.

Os americanos vão às urnas em novembro sob uma combinação rara de tensões: uma guerra no Oriente Médio que eleva o preço da gasolina, uma inflação que não cede mesmo após dois anos de governo Trump e o surgimento da inteligência artificial como nova ansiedade econômica. O controle do Congresso está em jogo — e a margem de erro é zero.

Republicanos mantêm maiorias estreitas na Câmara e no Senado. Para virar o jogo, democratas precisam conquistar quatro cadeiras líquidas em cada Casa. Ao todo, 435 deputados, 35 senadores e 39 governadores serão eleitos. Mas, acima dos números, pesa o bolso do eleitor.

O custo de vida que não para de subir

É o tema número um. Em pesquisa CBS News de fim de setembro, mais da metade dos entrevistados disse que sua situação financeira piorou por causa das políticas econômicas atuais. Metade dos eleitores registrados ouvidos pela Reuters/Ipsos apontou o custo de vida como fator decisivo para o voto.

Os números não mentem:

  • Gasolina: US$ 4,28 por galão — alta de US$ 1,20 em um ano (dados AAA)
  • Diesel: US$ 6,32 por galão, pressionando fretes e alimentos
  • Aluguéis e supermercados: seguem em trajetória ascendente

A guerra comercial baseada em tarifas amplas, incluindo aliados, funciona como combustível extra para a inflação. O eleitor médio sente no bolso antes de ler qualquer análise.

Uma guerra que o público rejeita

O conflito contra o Irã, iniciado em fevereiro por decisão conjunta de Trump e Netanyahu, nasceu impopular e piorou. No começo, 40% apoiavam e 49% rejeitavam, segundo média de Nate Silver. Em setembro, o apoio caiu para 35% e a oposição subiu a 55%.

O fechamento do Estreito de Ormuz disparou o preço dos hidrocarbonetos — e a conta chegou na bomba. Uma pesquisa da Universidade Emerson em setembro mostrou a guerra como a principal preocupação isolada do eleitorado, superando até a economia em alguns recortes.

Imigração: a promessa que virou problema

Trump prometeu deportações em massa. Conseguiu reduzir o fluxo na fronteira com o México, mas a execução gerou rejeição. Operações do ICE consideradas truculentas, com mortes registradas, viraram o jogo da opinião pública.

Pesquisa Fox News de outubro: 43% aprovam a gestão migratória, 56% desaprovam. O Instituto Marist, em setembro, detectou algo histórico: pela primeira vez em anos, eleitores confiam mais nos democratas que nos republicanos para lidar com o tema.

Poder, ética e a sombra de 2024

Eleições de meio de mandato costumam ser referendo sobre o presidente. Trump, aos 80 anos, pediu votos como se seu nome estivesse na cédula. Enfrenta, porém, seu momento de menor popularidade.

Questões éticas aparecem no topo das preocupações no Pew Research Center. Democratas já anunciaram: se conquistarem o Congresso, abrirão investigações sobre uso da Casa Branca para enriquecimento pessoal do presidente e seu círculo próximo.

A estreia da IA no debate eleitoral

Pela primeira vez, inteligência artificial entra na pauta de campanha. Quase metade dos americanos ouvidos pelo Pew diz estar “muito preocupada” com o impacto da IA na economia.

O motivo é concreto: a corrida por centros de dados consome energia em escala industrial. Moradores de regiões próximas a essas instalações já veem contas de luz mais caras — um custo invisível da revolução tecnológica que bate na porta de casa.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis podem mudar o cenário até novembro: a trajetória do preço da gasolina (sensível a qualquer escalada no Estreito de Ormuz), eventuais vazamentos sobre investigações éticas e a capacidade dos democratas de transformar a insatisfação com a IA em plataforma concreta. O comparecimento — projetado como o maior em décadas — fará o resto.

Para o empresário e investidor brasileiro, o sinal claro é: a volatilidade cambial e de commodities deve seguir alta enquanto não houver definição majoritária no Congresso. Cenário de governo dividido historicamente trava pautas fiscais e comerciais — e isso, mais do que qualquer discurso, move mercados.