O governador eleito Douglas Ruas (PL) revelou seus três primeiros secretários com uma missão única: fechar um buraco de R$ 14 bilhões previsto para 2027 sem paralisar o estado. A equipe assume antes da posse, mas a verdadeira prova de fogo será a votação do orçamento na Alerj nas próximas semanas.
O “arquiteto” do ajuste e a aposta no teto de gastos
Anderson Monteze comanda a nova Secretaria de Planejamento, Gestão e Inovação. Policial rodoviário federal de carreira com passagens pelos governos Witzel e Castro, ele carrega a responsabilidade de redesenhar as contas antes mesmo da posse oficial.
A peça central é um projeto de teto de gastos baseado na Lei Complementar 212/2025 (Propag). A regra limitaria o crescimento das despesas primárias à inflação passada mais uma fração do crescimento real da receita (0%, 50% ou 70%).
O texto exclui estatais não dependentes — como Cedae e Ceasa — e impõe limites proporcionais a Alerj, TCE, MP e Tribunal de Justiça. Emendas parlamentares impositivas também entrariam na trava.
Patrimônio imobiliário: a “mina” esquecida para gerar caixa
Monteze herdará a gestão do patrimônio imobiliário do estado, hoje na Casa Civil. A ideia é explorar ou vender ativos ociosos para engordar a receita sem criar impostos.
Paralelamente, a pasta organiza a convocação de 2.189 aprovados no último concurso da Polícia Militar. O desafio: contratar sem estourar o teto que ele mesmo está desenhando.
- Meta fiscal: Reduzir o déficit projetado de R$ 14 bi de forma “sustentável”, sem maquiagem contábil.
- Referência técnica: Análise do comportamento receita/despesa de 2022 e 2023, anos considerados equilibrados.
- Prazo crítico: Ajustes na LOA 2027 dependem de emendas de deputados, pois o governador em exercício, Ricardo Couto, perdeu a prerrogativa de alterar a peça após parecer da Comissão de Orçamento.
Casa Civil turbinada: PPPs, Metrô e a conta-gotas das concessões
Maria Gabriela Bessa assume a Casa Civil e Governança com status de “superpasta”. Ela centraliza o planejamento estratégico, PPPs e grandes obras de infraestrutura.
No radar imediato: expansão do metrô (ligação São Gonçalo–Praça XV e conclusão da Linha 2 até a Cruz Vermelha), nova modelagem de gás natural e licitações de trens e barcas. Bessa admite que o diagnóstico final depende dos relatórios setoriais recém-recebidos, mas já acionou BNDES e Banco Mundial para modelagem financeira.
Inclusão como política de Estado, não de gabinete
A vice-governadora Fernanda Louback acumula a Secretaria de Políticas Inclusivas e da Mulher. Duas frentes prioritárias definem a gestão:
- Autonomia econômica: Emprego e qualificação para vítimas de violência doméstica, visando romper o ciclo de dependência financeira.
- Neurodivergência: Políticas integradas entre Saúde e Educação para autistas e outros perfis, com foco na vida adulta — não só na infância.
A primeira entrega prática será recompor o quadro de profissionais de apoio escolar para o ano letivo de fevereiro. Louback, mãe de dois autistas, classifica a medida como “inadiável”.
O que observar daqui para frente: três variáveis decisivas
A transição migra para a Firjan nesta terça, mas o xadrez real se resolve fora dali. A nomeação do secretário de Segurança Pública — com poder de centralizar Polícias Civil, Militar, Defesa Civil e Administração Penitenciária — sinalizará se o discurso de “protagonismo” vira operação.
No Legislativo, a negociação do teto com os demais Poderes definirá se a regra nasce com dentes ou como letra morta. Por fim, a velocidade de monetização do patrimônio imobiliário testará a capacidade de Monteze transformar ativos parados em liquidez real para 2027. O orçamento vota em breve; o relógio não para.
