O dólar comercial fechou esta terça-feira (3) cotado a R$ 5,486, alta de 0,74%, enquanto o Ibovespa afundou 1,42% para 165.528 pontos — a sexta queda consecutiva desde a reeleição. A pergunta que paralisa as mesas de operação: o Banco Central vai segurar os juros amanhã ou o fiscal fala mais alto?
O dia em números: o termômetro do medo
Os dados mostram a profundidade do ajuste. Não foi apenas um “dia ruim”; foi a consolidação de uma tendência que começou nas urnas.
- Dólar à vista: R$ 5,486 (+0,74%) — máxima intradiária em R$ 5,509;
- Ibovespa: 165.528,92 (-1,42%) — menor nível desde janeiro;
- Índice DXY (dólar global): 101.850 (+0,13%);
- Quedas seguidas da Bolsa: 6 pregões — perda de quase 40 mil pontos desde o pico pré-eleição (acima de 205 mil).
Por que o real sangrou mais que os pares
O feriado de Finados na segunda adiou a reação, mas não a evitou. Três vetores convergiram para pressionar a moeda brasileira em velocidade superior à do índice DXY lá fora.
Primeiro, a incerteza fiscal. O mercado não compra a narrativa de “ajuste gradual” sem ver a caneta na mão. Segundo, a repercussão das ideias do economista André Lara Resende sobre mudança de regime monetário — prontamente rechaçadas pelo ministro Dario Durigan, mas suficientes para assustar quem precifica risco de dominância fiscal. Terceiro, as eleições de meio de mandato nos EUA, que mantêm o dólar forte globalmente.
Bolsa: Petrobras e Vale carregam o piano
As duas gigantes de peso no índice ditaram o ritmo. A Petrobras sofreu com a correção do petróleo no exterior após o feriado, enquanto a Vale acompanhou a volatilidade do minério de ferro. Juntas, elas funcionam como alavanca: quando caem, arrastam o Ibovespa para baixo com força desproporcional.
Curiosamente, as big techs americanas ensaiaram recuperação na mesma sessão. O desconto do Brasil não é setorial; é estrutural. O investidor estrangeiro olha para o risco país e pede prêmio — o que se traduz em saída de fluxo e desvalorização dos ativos locais.
O elefante na sala: Copom e o boletim Focus
Todas as fichas estão na reunião do Comitê de Política Monetária que termina amanhã (4). A Selic está em 13,75% ao ano, e a aposta majoritária é de manutenção. O problema é o que vem depois.
O Focus desta terça acendeu o sinal vermelho: a projeção de inflação para 2027 saltou de 4,34% para 4,76%, furando o teto da meta (4,5%). Em resposta, a estimativa da Selic para o fim do ano que vem subiu de 11,75% para 12,50%. O mercado já precifica juros altos por mais tempo.
Cenário externo ajuda, mas não resolve
O DXY subiu apenas 0,13%. Se o dólar global mal se mexeu e o real caiu 0,74%, a conta é simples: o prêmio de risco Brasil explodiu. A diferença entre a alta da moeda aqui e lá fora mede exatamente o custo da desconfiança doméstica.
O que observar daqui para frente
A comunicação do Copom amanhã vale mais que a decisão de juros em si. Frases como “vigilância”, “serenidade” ou “dados dependentes” vão ditar o ritmo do dólar nos próximos dias. Paralelamente, fique de olho em dois gatilhos: a apresentação formal do arcabouço fiscal (se houver sinalização de metas críveis) e a próxima leitura do Focus. Se a expectativa para 2027 continuar subindo, o dólar tem caminho aberto para testar R$ 5,60 antes do Natal.
