Economia

O segredo que ninguém conta: biodiesel engole 122% mais óleo vegetal

Tanque de caminhão e prato de comida disputando óleo vegetal, ilustração biodiesel vs alimentos
A disputa silenciosa: biodiesel consome 122% mais óleo vegetal em 3 anos, ameaçando abastecimento alimentar.

A demanda por óleos vegetais para fabricar biodiesel disparou 122% em apenas três anos nas três maiores economias consumidoras. Tailândia, Brasil e Estados Unidos devem consumir 34,3 milhões de toneladas em 2024, volume que salta para 40,3 milhões se a União Europeia for incluída. A consequência direta? Uma disputa acirrada entre o tanque de combustível e a mesa do consumidor.

Segurança energética supera agenda verde

Durante duas décadas, o biodiesel foi vendido como solução ambiental. O jogo virou quando conflitos geopolíticos estrangularam a oferta de petróleo fóssil. Governantes passaram a enxergar a mistura obrigatória como blindagem energética, não apenas como descarbonização.

O movimento é global e coordenado. A Indonésia lidera com a mistura B50 (50% de óleo de palma) desde julho, projetando consumo de 17,4 milhões de toneladas — mais que o dobro de 2020. Malásia e Tailândia adotaram o B20, enquanto Brasil e EUA correm para elevar seus percentuais.

O tabuleiro Brasil-EUA em números

O impacto nas duas maiores potências agrícolas do Ocidente é assimétrico, mas intenso. No Brasil, a implementação do B16 em março deve levar o uso de óleo de soja de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas. Nos Estados Unidos, a cifra salta de 5 para 8,1 milhões de toneladas com as novas diretrizes energéticas.

  • Brasil: alta de 383% no uso de óleo de soja para biodiesel em 15 anos.
  • EUA: salto de 913% no mesmo período.
  • Índia: importa 16 milhões de toneladas/ano e vê o gargalo interno piorar.

Soja: a corrida para alimentar a máquina

A oferta tenta acompanhar. A safra mundial de soja deve saltar de 261 milhões (2010/11) para 443 milhões de toneladas em 2026/27, segundo o USDA. O Brasil sai de 75 milhões para 182 milhões no mesmo intervalo, de acordo com a Conab.

Hoje, o mundo produz 243 milhões de toneladas de óleos vegetais. Palma (79 mi) e soja (75 mi) dominam, seguidas por canola e girassol. Mas a fatia destinada a combustíveis cresce mais rápido que a área plantada.

O reflexo no bolso: inflação de 145% no óleo

Desde 2020, a inflação média dos alimentos acumula 73%. O óleo de soja, porém, dispara 145%, conforme a Fipe. Não é só a demanda por biodiesel: quebras de safra, estoques globais comprimidos e cotações internacionais em alta formam a tempestade perfeita.

Mas o efeito mais relevante aparece na segurança alimentar de importadores líquidos. A Índia, maior comprador global, vê sua conta de importação inchar justamente quando a oferta exportável é desviada para usinas de biodiesel.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o próximo capítulo: a confirmação do B16 brasileiro em março, a sustentabilidade do B50 indonésio diante de rendimentos agrícolas e a política de créditos de carbono nos EUA (Inflation Reduction Act). Se a soja não render o suficiente por hectare, a macaúba — com potencial de 7 a 10 vezes mais óleo por área que a soja — deixa de ser promessa para virar necessidade estratégica.