Economia

Reforma tributária: 20 entidades pedem adiamento da CBS para 2028 — entenda o risco

Representantes de entidades tributárias entregam carta aberta pedindo adiamento da CBS para 2028
Mais de 20 entidades pedem adiamento da CBS para 2028 em carta aberta ao governo.

Mais de 20 entidades de direito tributário assinaram carta aberta pedindo que a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) só entre em vigor efetivo em 2028, não em 2027. O motivo: faltam regras claras, sistemas prontos e tempo para adaptação.

O documento, divulgado no último sábado (31), expõe um cenário de insegurança que atinge diretamente o caixa e a operação das empresas. O que está em jogo não é a reforma em si, mas a capacidade do país de colocá-la para funcionar sem quebrar a rotina de quem produz.

O nó da alíquota: duas semanas para decidir o ano todo

O Senado tem até 15 de dezembro para fixar a alíquota da CBS. Se o prazo for até o limite, as empresas terão pouco mais de 15 dias para calcular impactos, renegociar contratos, revisar preços e ajustar operações antes de 1º de janeiro.

Para setores com cadeias longas ou margens apertadas, esse intervalo é impraticável. A carta alerta que a carga tributária efetiva pode variar significativamente dependendo do percentual final — e não há como planejar no escuro.

Sistema de apuração assistida ainda não roda

A ferramenta que deveria ajudar os contribuintes a calcular CBS e IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) não está operacional. Sem ela, não há como testar processos, validar integrações ou treinar equipes com antecedência mínima.

O resultado: empresas chegam à data de largada sem terem simulado uma única apuração real. O ano de testes de 2026, segundo as entidades, foi consumido por atrasos do próprio poder público na entrega de regras e ambientes técnicos.

ERP, nota fiscal e controles: o custo invisível da adaptação

A implementação exige mexer no coração dos sistemas de gestão:

  • Parametrização tributária em ERPs e softwares fiscais
  • Emissão de notas fiscais com novos campos e regras
  • Controles de créditos e débitos da não cumulatividade
  • Integração com o portal nacional da reforma

Cada dia de atraso na publicação de leiautes e manuais técnicos reduz o tempo de desenvolvimento e homologação. Pequenas e médias empresas, sem times dedicados, ficam ainda mais expostas.

Conflito de competência: IBS e CBS podem gerar decisões contraditórias

Embora o IBS comece a subir gradualmente só em 2029, ele já incide em 2027 com alíquota de 0,1%. Como CBS (federal) e IBS (estados e municípios) tratam de matérias comuns, mas tramitam em esferas judiciais distintas, há risco real de decisões conflitantes sobre uma mesma operação.

A carta pede a criação de mecanismos de harmonização antes que o contencioso exploda. Sem isso, a insegurança jurídica — um dos males que a reforma promete combater — pode aumentar no curto prazo.

O que diz quem assina o pedido

Gustavo Brigagão, presidente do CESA (Centro de Estudos das Sociedades de Advogados), resume a posição: “Não se trata de resistir às mudanças, mas de assegurar que sejam feitas com responsabilidade e segurança jurídica”.

As 26 signatárias — entre elas AASP, IAB, OAB-DF, ABDF, CESA e institutos estaduais de direito tributário — reforçam que apoiam os objetivos da reforma: simplificação, transparência e neutralidade. Mas alertam que esses princípios só se concretizam com condições técnicas e jurídicas adequadas.

O que observar daqui para frente

Três movimentos definem o desfecho nas próximas semanas:

  • Senado: votação da alíquota da CBS — prazo final em 15 de dezembro
  • Executivo: entrega do sistema de apuração assistida e leiautes definitivos
  • Congresso: avaliação de projeto de lei para adiar a vigência efetiva para 2028, reservando 2027 como ano de testes reais

Se o calendário não mudar, janeiro de 2027 será o primeiro teste de fogo de uma reforma que promete simplificar — mas que, por enquanto, adiciona uma camada extra de complexidade para quem precisa colocar a casa em ordem.