Um acordo selado com aperto de mão e anotado num guardanapo colocou a argentina Catena no mapa do vinho brasileiro — mas a verdadeira virada aconteceu quando ninguém sabia o que estava bebendo. Em 1993, a importadora Mistral apostou numa marca que o mercado desprezava e usou uma tática inusitada para derrubar o preconceito: serviu o rótulo às cegas num jantar de fim de ano. O resultado? Especialistas juravam tratar-se de Borgonha ou Califórnia.
A história, contada por Otavio Lilla, CEO da Mistral, no videocast Vamos de Vinho, revela como uma decisão informal mudou a percepção de um país produtor inteiro. Mas o segredo não estava só no líquido: estava na forma como ele foi apresentado.
O encontro em Bordeaux que ninguém levou a sério
Tudo começou na Vinexpo de 1993. O pai de Otavio encontrou Nicolás Catena — ou melhor, a esposa dele — num estande modesto. Provou um Chardonnay e, surpreso, perguntou se havia tintos. Ao saber que não havia importador no Brasil, decretou: “Então já tem”. Sem contrato, sem advogados, apenas um aperto de mão.
Pouco tempo depois, uma funcionária da vinícola veio ao Brasil para uma feira pequena. O acerto final saiu, literalmente, num guardanapo. Na época, o vinho argentino carregava uma má fama generalizada: “existia uma fama que o vinho argentino era ruim”, resume Lilla. O motivo? Armazenamento e engarrafamento precários que favoreciam a oxidação.
A estratégia da garrafa invisível
Para furar a barreira do preconceito, a Mistral criou um teste cego involuntário. No jantar de fim de ano da revista Gula, a importadora ofereceu o Chardonnay da Catena com uma condição inegociável: a garrafa ficaria escondida atrás do bar.
As taças rodaram. Os comentários foram unânimes:
- “O que é isso? É Borgonha?”
- “É Califórnia, com certeza.”
- Quando revelada a origem: “Argentina não é. Pode ser qualquer coisa, mas Argentina não é.”
A frase do amigo do pai de Lilla, Saul Galvão, resume o tamanho do viés. O vinho era excelente — mas a etiqueta assustava.
Catena não esperou o mercado entender
Lilla faz questão de dividir o mérito: “Eu falo que ele se ajudou mais do que a gente ajudou ele”. Nicolás Catena tomou três decisões que o mercado ainda não via:
- Resgatar a Malbec como uva-emblema, apostando no potencial ignorado por todos;
- Levar vinhedos para altitudes extremas, onde a amplitude térmica esculpe acidez e estrutura;
- Comunicar essa narrativa com clareza, transformando técnica em desejo.
A Mistral foi parceira de primeira hora, mas a genialidade produtiva e mercadológica veio de Mendoza.
O perigo invisível na taça: falsificações e contrabando
O alerta final de Lilla muda o foco da história para um risco concreto. Muitas críticas a rótulos consagrados, segundo ele, nascem de garrafas que não são originais — ou que “sofreram no caminho”.
Ele relata o caso de uma funcionária que comprou duas garrafas idênticas: uma na Mistral, outra no contrabando. A rolha da segunda era minúscula, de outro vinho. O armazenamento? Sol, barracões, proximidade com agrotóxicos. “O vinho é um produto vivo, a rolha é porosa”, alerta. O risco não é só estético: é de saúde.
O que observar daqui pra frente
A lição prática para quem compra, vende ou investe em vinho no Brasil é direta: a procedência do canal de compra pesa tanto quanto a safra ou a uva. Um rótulo premiado armazenado sob sol forte vira vinagre caro — e pode levar a conclusões erradas sobre a qualidade do produtor.
Fique atento a três sinais na próxima aquisição:
- Rolhas ressecadas, muito pequenas ou com marcas de outro produtor;
- Nível do líquido anormalmente baixo (ombro da garrafa) em vinhos jovens;
- Preços muito abaixo do praticado por importadoras oficiais — o “bom negócio” costuma sair caro.
O mercado amadureceu desde o guardanapo de 93. Mas a armadilha do contrabando mal armazenado continua tão real quanto o preconceito que quase enterrou a Malbec argentina antes de ela brilhar.
