Meio Ambiente

COP17: Brasil avança, mas o buraco bilionário no Fundo Cali permanece

Delegados da COP17 em Yerevan discutem financiamento da biodiversidade com destaque para equipe brasileira
COP17 em Yerevan: Brasil lidera avanços, mas buraco bilionário no Fundo Cali persiste

A 17ª Conferência da Biodiversidade (COP17) encerrou em Yerevan com o “Caminho de Yerevan”, documento que admite: o mundo está longe de cumprir as 23 metas de Kunming-Montreal para 2030. O Brasil foi articulador central nos avanços, porém, os temas que mexem no bolso das grandes economias e corporações ficaram apenas no papel.

Para o setor privado e investidores, o recado é claro: a regulação vem aí, mas o financiamento prometido ainda não tem endereço certo.

O diagnóstico que travou a conferência

A revisão oficial do Marco Global mostrou que os esforços atuais são “insuficientes”. A diretora da The Nature Conservancy Brasil, Karen Oliveira, definiu a COP como uma “correção de rumo”: houve progresso em monitoramento e participação de povos indígenas, mas volume de recurso, reforma de subsídios e funcionamento do Fundo Cali ficaram pendentes.

Em números, a presidência da COP17 anunciou US$ 1,8 bilhão em compromissos financeiros somados — governos, multilaterais, filantropia e iniciativa privada. Parece muito, mas a estimativa de necessidade global passa de US$ 1,3 trilhão por ano.

Dinheiro novo na mesa, mas voluntário

A principal novidade financeira foi a ampliação voluntária da base de doadores. Economias como China, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passam a poder contribuir para o Fundo Global para a Biodiversidade (GBFF) e o GEF, antes restrito a países desenvolvidos.

Houve consenso para revisar a arquitetura desses fundos, buscando eficiência. Ainda assim, especialistas alertam: sem aporte obrigatório e previsível, a implementação nos países em desenvolvimento segue dependente de vontade política momentânea.

O elefante na sala: US$ 500 bilhões em subsídios prejudiciais

A reforma de subsídios que destroem a natureza avançou a passos lentos. O acordo criou um grupo de trabalho para redirecionar pelo menos US$ 500 bilhões anuais de atividades nocivas para incentivos positivos.

Para An Lambrechts, do Greenpeace Internacional, as “boas intenções” de Yerevan não resolvem o esvaziamento dos cofres nem as restrições fiscais dos países endividados. O grupo de trabalho é um passo, mas o cronograma de execução continua indefinido.

Fundo Cali: corporações lucram, preservação espera

Criado na COP16 para captar recursos de empresas que usam sequenciamento genético (farmacêuticas, cosméticas, agro), o Fundo Cali travou. Na prática, a adesão permanece voluntária.

  • O entrave: Grandes corporações lobbyzaram contra a obrigatoriedade de pagamento.
  • O resultado: O fundo não opera; a repartição de benefícios segue teórica.
  • O impacto: Setores que dependem de ativos genéticos (bioeconomia, fármacos, cosméticos) operam em zona cinzenta regulatória.

Lambrechts resume: “Empresas lucram gigantescamente com a natureza e contribuem muito pouco para preservá-la”.

Vitórias táticas brasileiras: uso sustentável e conectividade

O Brasil emplacou dois avanços relevantes para a economia da sociobiodiversidade:

  • Uso sustentável: Proposta nacional foi incorporada ao artigo sobre atividades com resultados positivos para a natureza. Exige consultas a países, povos indígenas e comunidades locais; abre caminho para futuro Programa de Trabalho.
  • Conectividade ecológica: A criação de corredores verdes e azuis foi referenciada no documento, mantendo a pauta viva para próximas rodadas, embora não tenha virado elemento programático standalone.

Michel Santos, do WWF-Brasil, destaca: “Conservar e gerar benefícios socioeconômicos respeitando direitos históricos é a equação que precisa fechar”.

O que observar daqui para frente

Três frentes ditam o ritmo dos próximos meses e impactam diretamente estratégias de investimento e compliance:

  1. Operacionalização do Fundo Cali: Se a voluntariedade cair, custos de conformidade sobem para usuários de DSI (Informação de Sequenciamento Digital).
  2. Relatórios do grupo de subsídios: Redirecionamento de US$ 500 bi pode alterar competitividade setorial (agro, energia, pesca).
  3. Arquitetura financeira GBFF/GEF: Novas regras de acesso a recurso mudam viabilidade de projetos de restauração e bioeconomia no Sul Global.

Quem atua com ativos biológicos, cadeias de fornecimento verde ou financiamento climático deve tratar Yerevan não como fim de ciclo, mas como sinal de onde a regulação vai apertar primeiro.