Meio Ambiente

Protetor de hélice obriga paralisação e expõe racha entre lei e realidade no litoral sergipano

Operadores de lanchas protestam na Orla Pôr do Sol contra protetor de hélice obrigatório para salvar peixe-boi Astro
Trabalhadores do transporte aquaviário paralisam atividades em Aracaju contra exigência judicial de protetores de hélice.

Trabalhadores do transporte aquaviário em Aracaju cruzaram os braços neste domingo (1º) contra uma determinação judicial que torna obrigatório o uso de protetores de hélice. A medida visa salvar um único animal — o peixe-boi Astro —, mas a categoria alega que o equipamento transforma a navegação em prejuízo certo. O impasse coloca em xeque a viabilidade econômica de uma frota inteira.

O estopim na Orla Pôr do Sol

A manifestação reuniu operadores de lanchas e embarcações menores na Zona de Expansão da capital. O motivo central não é a recusa à preservação, mas a engenharia do dispositivo exigido. Segundo os profissionais, a grade de proteção quebra com facilidade ao tocar o fundo raso ou detritos flutuantes, comuns na rota.

Cada quebra significa paralisação forçada, custo de reposição e perda de diárias. Alessandro dos Santos, um dos manifestantes, resume a dor do bolso: o equipamento não aguenta a rotina operacional e o animal alvo, Astro, raramente frequenta o trecho específico da Orla onde eles trabalham.

Quando a lei ignora a operação

A Cooperativa de Lanchas da Região Sul de Sergipe reconhece o drama financeiro dos associados. Ainda assim, a entidade confirmou em nota que cumpre a ordem integralmente. O argumento é de que se trata de medida de segurança e proteção à vida aquática, inegociável perante a Justiça Federal.

Essa posição expõe a assimetria: o armador arca com o custo do equipamento e da manutenção, enquanto o risco de sanção judicial recai sobre a cooperativa e as autoridades fiscalizadoras. Não há, até o momento, linha de crédito ou subsídio público para a adaptação da frota.

O “VIP” da fauna marinha custa caro

Astro não é um peixe-boi qualquer. Ele é Patrimônio Cultural e Natural de Sergipe pela Lei nº 9.732, de agosto de 2025. Seu trânsito habitual cobre o Complexo Estuarino Piauí-Real-Fundo, na Praia do Saco, e o Estuário do Rio Vaza-Barris — exatamente o corredor logístico das embarcações.

O histórico do animal justifica a dureza judicial. Dados da Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA) contabilizam 34 colisões ao longo da vida dele. O episódio mais grave ocorreu em 1º de fevereiro de 2026, na Praia do Saco: cinco cortes profundos, o maior com 22 cm de extensão e 6 cm de profundidade, exigiram semanas de tratamento veterinário intensivo.

O pacote judicial além da hélice

A Ação Civil Pública do Ministério Público Federal (MPF) resultou em um conjunto de determinações que extrapolam o protetor. A fiscalização náutica pela Capitania dos Portos começou valer em 1º de outubro. Confira os pilares da decisão:

  • Uso obrigatório de protetores de hélice em todas as embarcações da região.
  • Fiscalização ativa e contínua pela Capitania dos Portos.
  • Elaboração de plano de educação ambiental.
  • Governança interfederativa unindo União, Sergipe, Bahia e municípios lindeiros.

O descumprimento injustificado acarreta multa para os entes públicos e autoridades responsáveis, o que pressiona a máquina estatal a cobrar o setor privado com rigor.

Uma espécie na UTI, um negócio na corda bamba

O peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) está classificado como “em perigo” de extinção no Brasil. A população nativa estimada gira em torno de 1.100 indivíduos, distribuídos de Alagoas ao Piauí. Nesse cenário, cada exemplar reprodutivo tem peso demográfico desproporcional.

Para o empresário do setor, no entanto, a equação é imediata: frota parada não gera receita. A adaptação técnica das embarcações para receber protetores mais robustos — que não quebrem na primeira semana — demanda investimento em estaleiro e projeto naval, itens fora do orçamento de muitos permissionários individuais.

O que observar daqui para frente

O próximo capítulo não é jurídico, mas tecnológico e financeiro. A solução passa pelo desenvolvimento de protetores de hélice adequados ao calado raso e às condições do estuário sergipano, algo que o mercado nacional ainda oferece pouco. Quem conseguir homologar um modelo durável e barato primeiro ditará o ritmo da frota nos próximos meses. Enquanto isso, a tensão entre a caneta do juiz e o motor do barco continua ditando o dia a dia na Orla Pôr do Sol.