Luiz Inácio Lula da Silva passou a última semana oscilando entre o medo e a revolta diante da pressão por um ajuste fiscal mais agressivo. O presidente recusa medidas consideradas básicas pelo mercado, como conter o ritmo de reajustes do salário mínimo e de benefícios sociais, alegando que não vai “trair” seu eleitorado nem repetir o “estelionato eleitoral” de 2015.
A resistência ocorre enquanto indicadores econômicos se deterioram: expectativas de inflação para 2027 disparam, o dólar pressiona e projeções de PIB caem para a faixa de 0,5% a 1,3%. Mas, afinal, qual é a alternativa do Planalto para evitar o colapso?
O trauma que dita a estratégia
O espectro do segundo governo Dilma Rousseff assombra o Palácio do Planalto. Lula relata a interlocutores que não suporta mais “20 anos de conversa de ajuste” e se vangloria de ter os melhores resultados fiscais “desde Fernando Henrique”.
A memória de 2015 é vívida: Dilma tinha 42% de aprovação (ótimo/bom) às vésperas da reeleição; seis meses depois, o índice despencou para 13%, enquanto a reprovação saltou para 62%. O colapso do emprego começou no segundo trimestre daquele ano. Para Lula, ceder à “chantagem do mercado” é o atalho para repetir a tragédia.
O que o presidente aceita (e o que veta)
Não há recusa total, mas uma seleção rigorosa de instrumentos. A estratégia atual, capitaneada pelo ministro do Planejamento, Bruno Moretti, apoia-se em três pilares:
- Cumprimento estrito da meta de superávit do arcabouço fiscal;
- Maior liberdade para bloquear verbas em rubricas hoje blindadas por lei;
- Aumento de receita via redução de isenções fiscais.
Por outro lado, mexer na Previdência militar ou cortar “penduricalhos” de forma agressiva está fora de cogitação pelo risco político imediato. Lula quer medidas sociais “transformadoras” para diferenciar um eventual quarto mandato do atual.
O vácuo na Fazenda e a sucessão antecipada
A indefinição sobre quem comandará o Ministério da Fazenda amplifica a incerteza. Nomes como Rafael Fonteles e Geraldo Alckmin circulam como “balões de ensaio”, mas Lula não dá sinais de decisão. A demora tem razão estratégica: a disputa pela Fazenda, Casa Civil e Segurança Pública já funciona como tabuleiro da sucessão de 2026, via ocupação de espaços ou vetos de nomes.
Enquanto isso, o presidente ouve mais o ex-ministro Guido Mantega e economistas de esquerda, defensores de ação direta para derrubar juros, em detrimento do ajuste fiscal como via indireta.
Cenário macro: a conta que pode chegar
O mercado já precifica o risco. Juros de longo prazo superaram o pico de pânico de janeiro de 2025. A média de crescimento do PIB, que foi de 3% entre 2023 e 2025, pode cair para 1,8% em 2026 e ficar abaixo de 1,3% no ano seguinte.
A decisão do Banco Central sobre a Selic na próxima quarta-feira (4) é incerta. O gatilho para uma mudança de postura no Planalto, segundo observadores, seria a combinação de dólar a R$ 6 ou IPCA anualizado acima de 6%.
O que observar daqui para frente
A equação política é o fator decisivo. A articulação no Congresso para um eventual “Lula 4” é descrita como “ainda mais complexa” do que a atual. O empresário e o investidor devem monitorar dois termômetros: a capacidade do governo de entregar receitas extras sem quebrar a base aliada e a reação do mercado de juros longos caso a meta de superávit pareça inalcançável apenas com bloqueios e fim de isenções. Se a percepção de risco fiscal se desancorar de vez, a autonomia do BC para cortar a Selic evaporará, travando a recuperação que o próprio presidente deseja.
