O Sistema Cantareira fechou outubro com 51,2% do volume útil — o segundo melhor índice para o mês em uma década —, mas a Sabesp manterá o limite de captação reduzido durante todo novembro. A razão está em uma regra técnica que poucos acompanham de perto.
Choveu 62% acima da média histórica no mês passado. Ainda assim, a faixa de “Atenção” persiste. Entenda o que isso significa para o seu negócio, sua cidade e o bolso do consumidor.
O número que engana: 51,2% não é “normal”
Pelas regras pós-crise de 2014/2015, a classificação operacional usa o volume do último dia útil do mês anterior. Em 30 de outubro, o Cantareira marcava 50,69%. Isso o mantém na Faixa 2 (40% a 60%), onde a captação máxima permitida é de 31 m³/s.
Se o sistema atingisse 60% — a faixa “Normal” —, o teto subiria para 33 m³/s. A diferença de 2 m³/s equivale a 2 mil litros por segundo a mais para abastecer a Grande São Paulo, Campinas e a bacia PCJ.
Recuperação relâmpago: de alerta a atenção em 60 dias
Em 30 de agosto, o volume útil era de 32,99% — faixa de Alerta. Um mês depois, saltou para 41,1%. No fim de outubro, 50,69%. Um ganho de 17,7 pontos percentuais em dois meses, impulsionado por chuvas atípicas:
- Setembro: 283,5 mm (mais que o dobro da média)
- Outubro: 210,8 mm (62% acima da média de 130,1 mm)
Mas o reservatório ainda precisa de mais 9,3 pontos percentuais para sair da zona de restrição operacional.
O que o El Niño reserva para os próximos 90 dias
Boletins do Inmet, Inpe e ANA indicam El Niño se intensificando a partir de novembro, com probabilidade elevada de chuvas acima da média no Sudeste até janeiro de 2027. O pesquisador Gilvan Sampaio (Inpe) alerta: o padrão será de pancadas intensas e irregulares, não chuvas contínuas.
Isso cria dois riscos simultâneos: enchentes urbanas em áreas vulneráveis e dificuldade de recarga sustentada dos reservatórios. Volume total de chuva não garante armazenamento se a água escorre rápido demais.
Limites de captação por faixa — o que está em jogo
| Faixa | Volume útil | Captação máxima |
|---|---|---|
| Normal | ≥ 60% | 33 m³/s |
| Atenção | 40% – 60% | 31 m³/s |
| Alerta | 30% – 40% | 27 m³/s |
| Restrição | 20% – 30% | 23 m³/s |
| Especial | < 20% | 15,5 m³/s |
Cada degrau abaixo de “Normal” reduz a margem de manobra da Sabesp. Em 2015, a faixa Especial forçou o uso do volume morto — cenário que a regra atual tenta evitar.
Por que isso importa para quem não mora em São Paulo
O Cantareira abastece cerca de 11 milhões de pessoas na RMSP e contribui com Campinas e 13 municípios das bacias Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Indústrias, agronegócio e data centers dependem da previsibilidade hídrica. Restrição de captação pode significar rodízio velado, pressão reduzida na rede ou custos extras com caminhões-pipa e poços artesianos.
A interligação com a bacia do Paraíba do Sul (via Jaguari-Atibainha, operacional desde 2018) dá flexibilidade, mas tem limite físico e burocrático.
O que observar daqui para frente
Três variáveis decidirão se o Cantareira atinge 60% antes de março:
- Distribuição espacial das chuvas — bacias de Jaguari/Jacareí e Atibainha precisam receber volume consistente
- Evaporação — temperaturas acima da média (previstas) aumentam perdas
- Demanda — verão costuma elevar consumo em 8% a 12%
Se novembro e dezembro repetirem outubro, a faixa Normal pode virar realidade em janeiro. Se as pancadas forem localizadas e a evaporação acelerar, o sistema travessará o verão inteiro em “Atenção”. Acompanhe os boletins diários da Sabesp e os alertas do Cemaden: a diferença entre 31 e 33 m³/s pode ser a diferença entre abastecimento tranquilo e gestão de crise.
