O Supremo Tribunal Federal marcou para terça-feira, 3 de novembro, uma audiência pública que pode definir o futuro das apostas online no Brasil. A composição da mesa, porém, já escancara um desequilíbrio: das 28 entidades convidadas, nenhuma representa a saúde pública, a defesa do consumidor ou a proteção da infância.
Quem vai falar pelo lado que perde?
O que a pesquisa revelou sobre o impacto nas casas brasileiras
Em julho, o estudo Mulheres & Bets — conduzido pela CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA — ouviu mais de 2 mil mulheres em todo o país e fez 60 entrevistas em profundidade nas classes C, D e E. Os números expõem uma realidade que os balanços financeiros não mostram:
- 4 em cada 10 brasileiras já apostaram;
- A maioria não jogava por lazer, mas para completar a renda: conta de luz, material escolar, festa do filho;
- Quando perdiam, o buraco abria dentro de casa — “às vezes não tem um grão de comida”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia;
- Entre mulheres que convivem com apostadores, 14% deixaram de pagar contas, 25% relatam brigas e perda de confiança, e 23% dos brasileiros conhecem casos onde a aposta alimentou violência familiar;
- 65% das que quiseram ajuda para parar não pediram por vergonha.
Esses dados mudaram o debate. Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição das bets, contra 50% dos homens. Em outubro, com a medida provisória em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio à proibição em todo o país — alta de 13 pontos em relação a novembro de 2024. A pauta saiu das páginas de economia e virou questão de família, saúde mental e proteção de crianças.
A conta econômica que não fecha
O argumento da receita merece ser ouvido por inteiro. Em 2025, os clubes da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios das bets — o equivalente a 7% de suas receitas. No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que o futebol ganhou corresponde a menos de 3% do que as famílias deixaram lá.
Sobre a arrecadação tributária: entre fevereiro e setembro de 2025, o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais. A lei reserva 1% da parcela destinada a políticas públicas para o Ministério da Saúde. Até agosto, haviam chegado à pasta cerca de R$ 33 milhões. Enquanto isso, o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias.
O reconhecimento do desequilíbrio e a pressão por equidade
A própria Advocacia-Geral da União admitiu, ao pedir a ampliação da audiência, que a composição atual é predominantemente composta por entidades esportivas e operadoras. A AGU solicitou a inclusão de organizações como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove entidades da sociedade civil — entre elas a CLARICE — escreveram ao ministro Luiz Fux pedindo representação equânime de todas as perspectivas afetadas pela MP.
Até agora, a lista foi ampliada uma única vez: para incluir o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.
O que está em jogo na terça-feira
Uma audiência pública serve para instruir uma decisão. Quando ela escuta só quem perde receita com a proibição, a pergunta é direta: a serviço de quem ela está? Uma escuta parcial interessa a quem prefere que essa conta permaneça invisível. Quem paga por ela já pagou antes: a mãe que assume a dívida do filho, a adolescente que apostava com o CPF de um adulto sem que nenhuma plataforma a impedisse.
As histórias dessas famílias precisam ter o mesmo peso que os balanços dos clubes e as projeções das empresas.
O que observar daqui para frente
A medida provisória segue para o Congresso Nacional, onde o debate deve ser feito por inteiro, com tempo e dados. Até lá, ela precisa ser mantida. Suspender a proibição antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois.
As mulheres brasileiras já estão agindo: confrontam, negociam dívidas, tomam o celular de quem joga, buscam rede de apoio, vigiam os filhos. Quando perguntadas, dizem com clareza o que querem. A terça-feira vai mostrar se as instituições estão dispostas a ouvi-las. O Brasil ganha muito quando escuta todos os lados. Perde muito quando escuta só um.
