Economia

Fim da escala 6×1: o que ninguém te conta sobre o impacto real na informalidade

Gráfico mostra taxa de informalidade no Brasil em 37,4% no 2º trimestre de 2026
Informalidade atinge menor nível desde 2020 enquanto debate sobre fim da escala 6x1 avança.

O fim da escala 6×1 deve elevar a informalidade nas margens do mercado de trabalho, especialmente em pequenas empresas, mas especialistas descartam uma hecatombe. A transição para duas folgas semanais remuneradas será gradual e a maioria dos trabalhadores já atua no modelo 5×2.

Dados do IBGE mostram que a taxa de informalidade fechou o segundo trimestre de 2026 em 37,4% — 38,6 milhões de pessoas —, o menor patamar para o período desde 2020. O desafio agora é entender se a mudança na jornada reverte essa trajetória.

O que os números revelam sobre o cenário atual

A informalidade não se distribui uniformemente. Estados com mercados de trabalho mais frágeis concentram as maiores taxas: Maranhão (56,9%), Pará (55,9%) e Amazonas (51,7%). Na ponta oposta, Santa Catarina (25,4%), Distrito Federal (28,7%) e Mato Grosso do Sul (29,2%) registram os menores índices.

Essa assimetria regional ajuda a explicar por que o impacto da redução da jornada — de 44 para 40 horas semanais — será sentido com intensidade diferente conforme o porte da empresa e a localização.

Medidas de amortecimento já estão em curso

Para conter uma eventual corrida à informalidade, o governo prepara dois instrumentos principais:

  • Perdão de dívidas para empresas de eventos enquadradas no Simples Nacional, nos mesmos moldes do programa voltado a MEIs
  • Linha de crédito subsidiada do BNDES para pequenos negócios, com liberação prevista para os próximos dias

A lógica é preservar a capacidade de caixa das empresas que terão custo adicional com a folga extra remunerada.

Três visões sobre o mesmo problema

Gabriel Ulyssea, da University College London, prevê alta marginal da informalidade, mas descarta colapso. “Não vai ser uma hecatombe de jeito nenhum”, afirma. Ele lembra que a PEC das Domésticas gerou previsões apocalípticas semelhantes e que “há muito terrorismo de alguns setores”. Para Ulyssea, ampliar o banco de horas e facilitar contratos por tempo parcial seriam ajustes mais eficazes.

Sergio Firpo, do Insper, enxerga risco concentrado nas pequenas empresas, onde a fiscalização é rara. “O empregador pode substituir formal por informal, e o jovem da periferia no Nordeste e no Norte vai ficar mais tempo no emprego sem carteira.” Ele destaca que custos de demissão — FGTS e aviso prévio — encarecem a formalização justamente para quem ganha próximo ao mínimo.

Marilane Teixeira, do Cesit/Unicamp, adota cautela: “Reconhecer essas dificuldades não permite concluir que haverá, necessariamente, aumento da informalidade. Essa hipótese precisa ser demonstrada.”

O que dizem os donos de pequenos negócios

Pesquisa do Sebrae mostra que a percepção de impacto negativo caiu de 32% (2024) para 27% (2026), enquanto 51% não esperam efeitos relevantes. Entre as estratégias declaradas:

  • 28,9% pretendem aumentar preços
  • 24% planejam reorganizar turnos

Demissões em massa não aparecem como resposta principal — o desemprego historicamente baixo torna a retenção de talentos mais racional que a dispensa.

A raiz estrutural que a mudança não resolve

Mesmo com a informalidade no menor nível pós-pandemia, o Brasil convive com quase 40% a 50% da força de trabalho fora da proteção previdenciária plena — somando trabalhadores sem carteira e por conta própria não contribuintes.

Dos 25,9 milhões de trabalhadores por conta própria, 16,6 milhões (64,1%) não recolhiam para a Previdência em 2025. Entre 17,4 milhões de MEIs, apenas 10,1 milhões entregaram a declaração anual.

“A informalidade não é uma questão equacionada”, resume Teixeira. “Está ligada à estrutura produtiva, marcada por grandes diferenças de produtividade, desigualdades regionais e elevada presença de atividades de baixa renda.”

O que observar daqui para frente

A transição escalonada da jornada tende a amortecer o choque inicial. O termômetro real estará na capacidade das pequenas empresas de absorver o custo extra sem recorrer à informalidade — e na efetividade das linhas de crédito e perdão de dívidas. Para o empresário, a decisão entre reorganizar turnos, repassar preços ou informalizar margens definirá se a previsão de “alta pontual” se confirma ou se o mercado adapta-se sem rupturas.