Gilberto Kassab cravou a vitória de Lula dias antes do segundo turno de 2022, enquanto a direita já comemorava. A leitura fria das curvas de intenção de voto fez o PSD ficar na moita, evitando a debandada geral para o palanque de Flávio Bolsonaro. Essa frieza analítica desenhou o mapa de poder que vemos hoje no Congresso.
O susto inicial e a miragem do domínio total
O resultado das urnas para o Legislativo assustou o Planalto. O PL elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado, criando a sensação imediata de que a oposição controlaria o Congresso até 2027 sem contestação. Para investidores e gestores, o sinal era de paralisia legislativa ou radicalização pura.
Não foi o que aconteceu. O ambiente pós-eleição mostrou que maiorias eleitorais não se traduzem automaticamente em hegemonia parlamentar.
A metáfora das abóboras e o reequilíbrio de forças
Kassab resume a acomodação com uma imagem precisa: abóboras se ajeitando na carroça após o tranco. O fracasso na disputa presidencial tirou o fôlego da radicalização e resgatou o Centrão do encolhimento. O bloco voltou a ocupar o posto de fiel da balança, ditando o ritmo das votações e a pauta prioritária.
Esse movimento tem três consequências diretas para a governabilidade:
- Fôlego ao Executivo: O governo ganhou espaço para articular maiorias caso a caso, sem depender de uma base única e rígida.
- Valorização da negociação: Projetos de interesse do setor produtivo (tributário, regulatório, infraestrutura) passam pela mediação desse centro expandido.
- Contenção de extremos: A ameaça de isolamento forçou a oposição a calibrar o discurso, sob pena de perder relevância nas comissões e nas relatorias estratégicas.
Governabilidade: a lógica do consenso contra a eliminação
Diferente da eleição, onde vence quem elimina o adversário, o Parlamento só avança com consensos. O aparente desequilíbrio — um presidente de um lado, Congresso majoritariamente de outro — funciona, paradoxalmente, como um freio de segurança. Impede a concentração de poder e obriga a construção de pontes.
Mas o cenário não está consolidado. A oposição mantém a maior bancada partidária e capital político real. Se souber atuar como alternativa programática e não apenas como força de veto, segue como vetor de poder relevante para 2026.
O que observar daqui para frente
O termômetro está nas votações de pautas econômicas sensíveis: arcabouço fiscal, reforma tributária na regulamentação e indicações para tribunais superiores. A capacidade do Planalto de costurar maiorias pontuais com o Centrão — sem ceder ao fisiologismo predatório — ditará o risco Brasil nos próximos trimestres. Para o empresariado, a leitura é clara: a previsibilidade não vem da harmonia total, mas da tensão produtiva entre forças que precisam uma da outra para governar.
