Augusto Ferreira Lima, dono do Banco Pleno e ex-sócio de Daniel Vorcaro, afirmou à Polícia Federal que o ex-controlador do Banco Master tinha domínio total sobre a operação de crédito consignado — e não apenas conhecimento superficial, como sustentou em depoimento anterior. A declaração, prestada no dia 16 no âmbito da Operação Compliance Zero, coloca em xeque a versão de que Vorcaro atuava apenas na estratégia geral da instituição.
O depoimento de Lima contrasta frontalmente com o dado por Vorcaro em dezembro de 2024. Na ocasião, o ex-banqueiro disse aos investigadores que “não entrava nos detalhes” do consignado. Lima rebate: “Me causa muita dificuldade quando o Daniel vem dar um depoimento e diz: ‘Eu não conheço nada de consignado, quem conhecia era Augusto'”.
Contraordem expressa para processar contratos irregulares
Segundo o relato de Lima, em dezembro de 2024 uma equipe interna do Master identificou que determinados contratos não deveriam ser processados por falta de lastro. A resposta de Vorcaro, conforme o depoimento, foi uma contraordem direta: a operação deveria ser efetuada mesmo assim.
O ex-sócio afirma ainda que, diante de questionamentos de auditores do BRB (Banco de Brasília) e do Banco Central sobre a origem dos recursos, foi o próprio Vorcaro quem orientou executivos e subordinados a apresentar respostas evasivas ou falsas.
A engenharia por trás da inflação da carteira
Lima descreve à PF como a estrutura do Credcesta — cartão de consignado criado por ele para servidores públicos — teria sido usada para dar aparência de legalidade a carteiras sem lastro real. O mecanismo, segundo o depoimento, funcionava em duas frentes:
- Funcionários eram instruídos a declarar que os correspondentes bancários eram as associações Asteba e Ceba, da Bahia
- Alternativamente, deveriam afirmar que os ativos haviam sido sacados de fundos de investimento
A operação inicial com o BRB, de R$ 750 milhões em julho de 2024, tinha base em créditos regulares com histórico de alta adimplência. Mas o volume exigido posteriormente — entre R$ 5 bilhões e R$ 12 bilhões — era, nas palavras de Lima, “fisicamente e geograficamente impossível” de ser gerado pela estrutura do Credcesta.
O motor que alçou o Master no ranking nacional
O ex-sócio disse aos investigadores que a carteira de consignado, estruturada a partir do Credcesta, foi o que fez o Banco Master saltar no ranking nacional entre 2019 e 2025. Para Lima, seria contraditório que o principal executivo da instituição desconhecesse o funcionamento de uma atividade tão central.
Conversas interceptadas no inquérito reforçam a tese. Nelas, Vorcaro aparece orientando diretamente a classificação e a movimentação de operações: “diga que tirou do fundo”, “diga que comprou uma carteira”, “troque isso aqui”, “faça aquilo outro”.
Saída silenciosa e divergência estratégica
Lima afirmou que decidiu se desligar da gestão do Master entre o final de 2022 e o início de 2023, oficializando a saída do quadro diretivo em 28 de maio de 2024 — antes, portanto, da operação inicial com o BRB. A razão: divergência sobre os rumos do banco.
Enquanto Lima defendia foco exclusivo no Credcesta, Vorcaro teria direcionado a instituição para operações de atacado e aquisição de empresas em dificuldades. O ex-sócio disse que ficava sabendo de investimentos pelo mercado e pela imprensa, sem ser consultado.
Como o Credcesta dava liquidez ao Master, a saída de Lima da gestão do produto foi mantida em sigilo a pedido do banco e do regulador, para evitar pânico no mercado. Ele passou a atuar apenas como prestador de serviços de originação até estruturar a transferência definitiva da operação para o Banco Voiter, instituição própria.
O que vem a seguir no inquérito
A Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito e indiciou, no dia 28, Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas por suspeitas de crimes financeiros na venda de carteiras de crédito ao BRB. Entre os indiciados estão Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e o próprio Augusto Lima.
Lima é apontado como integrante do núcleo executivo-financeiro, acusado de gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Sua defesa rechaça as conclusões do relatório e afirma que ele não participou, direta ou indiretamente, das fraudes investigadas. A defesa de Vorcaro não se manifestou sobre o novo depoimento até o fechamento desta matéria.
O próximo passo cabe ao Ministério Público Federal, que avaliará se apresenta denúncia com base no relatório da PF. Enquanto isso, o Banco Central monitora os desdobramentos e a solidez das instituições envolvidas. Para o mercado, a atenção permanece no destino das carteiras já negociadas e na eventual necessidade de recomposição de lastro — um cenário que pode respingar em outros bancos que operaram na mesma esteira.
