O Supremo Tribunal Federal marcou para 3 de novembro uma audiência pública que pode definir o futuro das apostas online no Brasil. A lista de convidados, porém, revela um detalhe perturbador: ninguém foi chamado para defender quem perde dinheiro.
Das 28 entidades convidadas, dez são clubes de futebol, cinco representam o próprio setor de apostas e quatro são associações empresariais e de radiodifusão que lucravam com a publicidade. Zero representantes de saúde pública, defesa do consumidor ou proteção à infância.
O que as mulheres têm a ver com isso
Uma pesquisa inédita da CLARICE, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, ouviu mais de 2 mil brasileiras das classes C, D e E entre julho de 2025 e julho de 2026. O resultado quebrou a narrativa de que apostador é “perfil de risco” ou “jogador recreativo”.
Quatro em cada dez mulheres já apostaram. A maioria não jogava por diversão: o dinheiro ia para a conta de luz, o material escolar, o bolo de aniversário do filho. Quando perdiam, a falta era sentida na despensa.
“Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa porque a pessoa jogou”, relatou uma entrevistada de 24 anos, na Bahia.
O impacto que não aparece nos balanços
O estrago extrapola quem aperta o botão. Entre mulheres que convivem com apostadores:
- 14% deixaram de pagar contas essenciais
- Uma em cada quatro relata brigas e perda de confiança
- 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram violência familiar ligada a apostas
E o silêncio pesa: 65% das que quiseram pedir ajuda para parar não o fizeram por vergonha.
A conta que o futebol não paga
Os clubes da Série A embolsaram cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios das bets em 2025 — 7% de suas receitas. No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que o futebol ganhou equivale a menos de 3% do que as famílias deixaram lá.
Sobre a arrecadação tributária: o setor recolheu R$ 6,8 bilhões entre fevereiro e setembro de 2025. A lei destina 1% da parcela pública ao Ministério da Saúde. Chegaram à pasta cerca de R$ 33 milhões. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões ao ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias.
O pedido ignorado
A própria Advocacia-Geral da União reconheceu o desequilíbrio e pediu a inclusão de entidades como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove organizações da sociedade civil, incluindo a CLARICE, escreveram ao ministro Luiz Fux solicitando representação equânime. A lista foi ampliada uma única vez — para agregar o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.
Uma audiência serve para instruir uma decisão. Quando só se ouve quem perde receita com a proibição, a pergunta é inevitável: a serviço de quem ela está?
O que observar daqui para frente
A medida provisória segue para o Congresso, onde o debate deve ocorrer com tempo e dados. Até lá, a proibição precisa ser mantida. Suspendê-la antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois. As mulheres brasileiras já estão agindo: confrontam, negociam dívidas, tomam celulares, buscam apoio na igreja, vigiam os filhos. Na terça-feira, saberemos se as instituições estão dispostas a ouvi-las — ou se a conta continuará sendo paga apenas por quem não tem assento à mesa.
