O Supremo Tribunal Federal (STF) marca para a próxima terça-feira uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que proibiu as apostas online no Brasil. A lista de 28 convidados expõe um desequilíbrio gritante: estão lá dez clubes da Série A, cinco associações do setor de apostas e quatro entidades de radiodifusão e empresariais. Não há uma única representante de saúde pública, defesa do consumidor ou proteção à infância.
Essa composição levanta uma questão incômoda: a quem serve uma escuta que silencia justamente quem carrega o prejuízo?
A pesquisa que tirou o problema da invisibilidade
Até meados de 2025, o debate girava quase exclusivamente em torno de arrecadação, patrocínios e receitas dos clubes. O apostador era um número médio em planilhas; a família dele não existia nos relatórios. Foi para preencher esse vazio que o estúdio CLARICE, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, lançou a pesquisa Mulheres & Bets.
Foram mais de 2 mil entrevistas nacionais e 60 conversas em profundidade com mulheres das classes C, D e E. O retrato que emergiu contradiz a narrativa do “entretenimento responsável”:
- 4 em cada 10 brasileiras já apostaram online.
- A maioria não buscava enriquecimento, mas completar a renda: conta de luz, material escolar, festa do filho.
- Quando o dinheiro acabava, a falta era sentida dentro de casa — relatos de geladeiras vazias e violência doméstica associada ao vício tornaram-se padrão.
Entre mulheres que convivem com apostadores, 14% deixaram de pagar contas, 25% relatam brigas e perda de confiança e 23% da população conhece casos onde a aposta alimentou violência familiar. O silêncio das vítimas tem nome: 65% das que tentaram parar e não conseguiram ajuda citaram a vergonha como barreira.
O abismo entre o que entra e o que sai
O argumento econômico costuma ser o escudo do setor. Os números, porém, contam outra história quando colocados lado a lado.
Em 2025, os clubes da elite do futebol receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios — apenas 7% de suas receitas totais. No mesmo período, os apostadores brasileiros perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que chegou ao futebol representa menos de 3% do que saiu do bolso das famílias.
Sobre a arrecadação tributária: entre fevereiro e setembro de 2025, a União recolheu R$ 6,8 bilhões. A lei destina 1% da parcela de políticas públicas ao Ministério da Saúde. Até agosto, o valor efetivamente recebido pela pasta somava R$ 33 milhões. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima que o custo anual do sistema de saúde com transtornos ligados ao jogo supera R$ 30,6 bilhões. A conta fecha no vermelho para o SUS e para as famílias.
Reação institucional e o risco da escuta seletiva
A própria Advocacia-Geral da União (AGU) reconheceu o vazio de representatividade e pediu a inclusão de entidades como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove organizações da sociedade civil, incluindo a CLARICE, protocolaram pedido direto ao ministro Luiz Fux por uma composição equânime. Até o momento, a lista foi ampliada apenas para incluir o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte — mantendo o viés esportivo e comercial.
Uma audiência pública existe para instruir a decisão. Quando ela ouve apenas quem perde receita com a proibição, a suspeita de captura regulatória torna-se quase inevitável. O custo dessa escuta parcial é pago por quem não tem lobby: a mãe que assume a dívida do filho, a adolescente que aposta com CPF de terceiro sem barreiras eficazes, a família que vê o orçamento doméstico evaporar.
O que observar daqui para frente
A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate precisa ocorrer com tempo, dados e todas as vozes à mesa. Para o investidor e o empresário, o sinal é claro: a licença social do setor de apostas ruiu — 78% dos brasileiros apoiam a proibição, segundo Datafolha de outubro, alta de 13 pontos em menos de um ano.
Enquanto o Legislativo não deliberar, a tendência judicial é pela manutenção do bloqueio. Quem opera ou investe no ecossistema de bets deve precificar cenário de restrição severa ou extinção do modelo atual, e não apenas ajustes regulatórios. O próximo movimento não virá do mercado, mas das urnas e das ruas — onde as mulheres já decidiram o voto.
