A direita assumiu o protagonismo político dias após a vitória de Lula, atropelando a transição e forçando o governo a uma disputa interna por cargos antes de definir a rota econômica. Esse vácuo de poder cria uma janela de risco imediata para quem decide capital.
Enquanto Tarcísio de Freitas (Republicanos) admite candidatar-se em 2030 e Flávio Bolsonaro (PL) mobiliza sua base de 60 milhões de votos, o Planalto trava uma guerra fratricida por ministérios. A consequência direta: sinais fiscais confusos e uma reforma tributária sob ameaça.
O vácuo que o mercado não pode ignorar
A entrevista de Tarcísio ao Estadão, concedida antes mesmo de completadas 48 horas do resultado, funcionou como um gatilho. O governador de São Paulo ocupou o espaço deixado pela ausência de liderança clara da oposição no Congresso.
Para o investidor, a leitura é clara: a eleição de 2030 começou na semana passada. Isso força uma antecipação de movimentos que, em ciclos normais, só ocorreriam em 2026. A reorganização da direita no Legislativo já dita o ritmo das votações econômicas.
Governo sob fogo amigo: o custo da indecisão
Do lado do Executivo, a euforia da vitória deu lugar a uma disputa silenciosa — e perigosa — pelo comando da política econômica. Nomes que sustentaram a campanha entram na mira de alas do PT:
- Fernando Haddad (Fazenda): alvo de pressão por conta do ajuste fiscal, tratado por críticos internos como “tesouraço”.
- Rafael Fonteles (PI) e Camilo Santana: governadores e aliados estratégicos expostos na disputa por espaço na Esplanada.
- Gabriel Galípolo (BC): acusado pelo partido de ser responsável pelos “juros altos”, transformando a autoridade monetária em bode expiatório.
Essa briga não é apenas burocrática. Ela paralisa a definição de quem dará a cara da credibilidade fiscal nos próximos dois anos. Sem um nome forte e blindado no Ministério da Fazenda ou no Banco Central, o prêmio de risco brasileiro tende a permanecer pressionado.
A armadilha da Reforma Tributária
O próximo grande teste não está no Orçamento, mas na regulamentação da Reforma Tributária. A direita já articula rotular a implementação como “aumento de impostos”, mirando desgastar Lula na largada de 2027.
Se o governo não apresentar uma transição clara — com alíquotas de referência e regras de transição para setores sensíveis —, a narrativa da “volta da inflação via impostos” ganha corpo no Congresso. O tempo para evitar isso é curto: a sanção dos projetos complementares deve ocorrer ainda este ano.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o cenário de curto prazo para alocação de ativos:
- Permanência de Haddad: sua saída ou enfraquecimento sinaliza guinada heterodoxa.
- Indicação para o BC: a escolha do substituto de Campos Neto (ou a recondução de Galípolo) será o termômetro da autonomia real da autoridade monetária.
- Consolidação de Tarcísio: se o governador paulista mantiver a agenda nacional ativa, a polarização antecipada travará pautas de ajuste no Congresso.
O recado para o empresariado e gestores de fundos é direto: não há “ano de transição”. A disputa pelo poder em 2030 já precifica os ativos de 2024. Quem esperar o calendário oficial para se posicionar chega atrasado.
