A diretora da Prefeitura-Bairro de Valéria, Kelly Morais, declarou publicamente que se recusaria a atender pedidos de regulação fundiária de eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A fala, publicada nas redes sociais no dia seguinte à reeleição do petista, gerou repercussão imediata e abriu um processo administrativo interno na gestão municipal.
O post que detonou a polêmica
Na segunda-feira (26), Morais republicou em seu perfil a frase: “A partir de amanhã, vou sempre responder ‘faz o L’. Não me peça ajuda na regulação”. O cargo que ocupa exige atuação direta na ponte entre as demandas da comunidade — como regularização de imóveis, infraestrutura e serviços sociais — e o gabinete do prefeito.
A publicação foi interpretada como condicionamento do serviço público a preferência política, o que fere princípios constitucionais de impessoalidade e igualdade no atendimento.
Trajetória na gestão municipal
Kelly Morais não é novata na administração soteropolitana. Antes de assumir Valéria, ela passou por:
- Secretaria de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer (Sempre)
- Subsecretaria da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop)
- Prefeitura-Bairro de Cajazeiras
- Defesa Civil de Salvador (Codesal)
- Secretaria Municipal de Educação (Smed)
O histórico reforça a expectativa de que uma servidora com essa bagagem conheça as vedações legais ao uso político da máquina pública.
Pedido de desculpas e reconhecimento do erro
Horas após a repercussão negativa, a diretora divulgou carta aberta assumindo a responsabilidade. No texto, ela classifica a atitude como “incompatível com o cargo”, “estritamente pessoal” e pede desculpas “especialmente aos moradores de Valéria e das demais comunidades que confiaram em meu trabalho”.
Morais afirma que a publicação confundiu sua obrigação funcional com preferência partidária e reafirma compromisso com “respeito, sensibilidade e imparcialidade” no atendimento.
Posicionamento oficial da Prefeitura
A Secretaria de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro emitiu nota repudiando “qualquer conduta que possa ser interpretada como discriminatória”. O comunicado destaca que o caso será apurado internamente, com adoção das “medidas cabíveis”, e reafirma que os serviços devem ser prestados “a todos os cidadãos de forma igualitária, sem distinção por posicionamento político”.
Até o momento, a servidora permanece no cargo enquanto o processo administrativo tramita.
O que a legislação diz sobre o caso
A Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/92) e o Estatuto dos Servidores Públicos Municipais vedam a utilização do cargo para fins político-partidários. Condicionar serviço público a voto ou preferência eleitoral configura ato de improbidade e pode resultar em:
- Perda da função pública
- Suspensão dos direitos políticos
- Multa civil
- Proibição de contratar com o poder público
Além da esfera administrativa, o Ministério Público da Bahia pode abrir inquérito civil para apurar eventual prática de improbidade.
Repercussão nas comunidades afetadas
Valéria é uma das maiores regiões de Salvador, com mais de 100 mil habitantes e forte demanda por regularização fundiária. Moradores ouvidos pela reportagem relataram apreensão: muitos dependem da Prefeitura-Bairro para obter escrituras, licenças e benefícios sociais. A fala da diretora gerou insegurança sobre se o atendimento será de fato imparcial nos próximos meses.
Líderes comunitários cobram garantias formais de que não haverá retaliação a quem votou em determinado candidato.
O que observar daqui para frente
O desfecho do processo administrativo interno será o termômetro da tolerância da gestão Bruno Reis (União Brasil) com desvios de conduta política. Pontos de atenção:
- Prazo e transparência da apuração interna
- Eventual afastamento preventivo durante a investigação
- Posicionamento do Ministério Público da Bahia sobre abertura de inquérito civil
- Medidas concretas para garantir isonomia no atendimento em Valéria
Para o empresariado e investidores que acompanham a gestão pública na capital baiana, o episódio sinaliza como a prefeitura lida com riscos reputacionais e compliance político-administrativo em ano pré-eleitoral.
