Economia

O segredo do jantar: governador ordenou venda disfarçada do BRB ao Master

Governador Ibaneis Rocha e presidente do BRB em jantar que definiu venda de ações ao Banco Master
Encontro entre Ibaneis Rocha e diretoria do BRB selou venda disfarçada de 16,5% do banco público ao Master

O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou à Polícia Federal que o governador Ibaneis Rocha (MDB) determinou, em j privado setembro de 2024, a estruturação da venda de 16,5% do banco público ao Banco Master. A fatia pertence ao Instituto de Previdência do DF. O depoimento expõe uma manobra que, nas palavras do próprio Costa, se assemelha a uma “privatização disfarçada”.

O jantar que mudou tudo

Costa foi convocado para um encontro com o governador e Daniel Vorcaro, então controlador do Master. Segundo o relato, Ibaneis foi direto: “Paulo, estruture uma venda do BRB para o Master”. O ex-presidente já mantinha operações de cessão de crédito com a instituição de Vorcaro — justamente as carteiras que depois se revelaram infladas artificialmente.

No mesmo jantar, Vorcaro expôs a intenção real: apesar de minoritária, a aquisição viria acompanhada de um acordo de acionistas que lhe garantiria controle efetivo. “É banco público. Troca governo depois de um tempo. Preciso de um acordo que me garanta qual controle”, teria dito o banqueiro. A frase soou como alerta para Costa, que via a operação como incompatível com a natureza da instituição.

A cláusula que cheirava a privatização

A minuta do acordo previa a criação de uma holding financeira unindo BRB e Master. Costa seria o presidente da nova estrutura, o que exigiria sua renúncia ao comando do banco público e o desligamento de qualquer cargo estatal. A justificativa: a holding seria entidade privada, sujeita a regras de concorrência.

O ex-presidente relatou aos investigadores ter procurado Ibaneis no dia seguinte para barrar a transação. Argumentou que o BRB registrava “resultados extraordinários” e era peça central nos programas sociais do Distrito Federal. A resistência, porém, não impediu que o desenho societário avançasse nos bastidores.

A holding, o cargo e os imóveis de luxo

O depoimento traz um detalhe que conecta a governança à vida pessoal. Como presidente da holding, Costa precisaria residir em São Paulo. Ele condicionou a aceitação do posto à garantia de moradia fixa na capital paulista — “não fazia sentido eu ter que comprar duas casas, ter dois custos”, explicou.

A investigação aponta que o ex-presidente recebeu seis imóveis de alto padrão, entre São Paulo e Brasília. Para a PF, as propriedades funcionaram como contrapartida pela aquisição das carteiras de crédito podres do Master. A defesa de Ibaneis Rocha não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

  • Fatia em jogo: 16,5% do BRB (ações do IPREV-DF)
  • Data da ordem: setembro de 2024
  • Estrutura proposta: holding BRB-Master com Costa na presidência
  • Imóveis envolvidos: seis unidades de alto padrão
  • Objeto das carteiras: créditos inflados artificialmente

O que observar daqui para frente

O inquérito segue em segredo de justiça, mas os desdobramentos podem atingir três frentes simultâneas: a governança do BRB, a legalidade das cessões de crédito já realizadas e a eventual responsabilização de agentes públicos por direcionamento de ativos estatais. Investidores e gestores de fundos com exposição a papéis do banco devem monitorar comunicados da CVM e do Banco Central sobre eventuais medidas cautelares.

Outro ponto sensível é a sucessão na presidência do BRB. Caso a operação tenha deixado rastros na estrutura de capital ou em contratos de cessão, o próximo comando herdará passivos não contabilizados. A transparência nas demonstrações financeiras dos próximos trimestres será o termômetro real da extensão do dano.