Economia

Dívida de R$ 2,9 bi e imóveis de luxo: o império Poncio sob cerco da PF

Imagem de mansões de luxo e viaturas da Polícia Federal representando investigação do clã Poncio
Operação Unha e Carne mira império da família Poncio, com dívida de R$ 2,9 bi e suspeita de lavagem de dinheiro.

Um relatório técnico revela que o grupo empresarial da família Poncio acumula quase R$ 3 bilhões em débitos federais, enquanto a Polícia Federal avança sobre indícios de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. A nona fase da Operação Unha e Carne, deflagrada nesta semana, expõe uma teia societária que mistura cigarros, produção artística e jogos de azar.

O documento do Fórum Nacional Contra a Pirataria (FNCP), baseado no segundo trimestre de 2025, consolidou R$ 2.929.182.175,11 em dívida ativa da União. O valor já exclui duplicidades causadas pela responsabilidade solidária entre empresas e sócios.

Como se chega a um passivo bilionário

A composição da dívida não se resume a um único tributo. O levantamento aponta uma combinação de obrigações federais atrasadas há mais de duas décadas, com pico de crescimento em 2011. Entre os principais componentes estão:

  • IPI, PIS, Cofins, CSLL e IRPJ — tributos federais diretos sobre produção e renda;
  • FGTS — débitos trabalhistas não recolhidos;
  • Multas e juros — encargos que, somados ao principal, incham o valor final.

Empresas como Clean Indústria de Cigarros, Gudang Brasil, New Ficet, Win Distribuidora e M1 Distribuidora figuram no relatório. Pessoas físicas — Márcio Poncio, a esposa Simone, a filha e deputada Sarah, além do filho Saulo — aparecem vinculadas aos mesmos débitos via responsabilidade solidária.

Patrimônio visível versus dívida invisível

Enquanto o passivo tributário corre na casa dos bilhões, o FNCP mapeou ativos concretos. A pesquisa documental cruzou 84 pessoas físicas e jurídicas em quatro estados, resultando em 292 registros analisados.

O valor declarado de imóveis ligados ao grupo soma R$ 49,3 milhões. Treze deles já carregam anotação de indisponibilidade ou arrolamento por dívidas fiscais. Entre 2018 e 2023, foram 16 aquisições totalizando R$ 44,2 milhões.

Destaques do portfólio imobiliário:

  • Casa em Mangaratiba (RJ): R$ 9 milhões via TSB Administradora;
  • Apartamento na Av. Lúcio Costa, Rio de Janeiro: R$ 22 milhões via SMP ADM;
  • Sala comercial na Av. das Américas (2025): R$ 723,9 mil em nome de Sarah Poncio.

O cerco da Polícia Federal aperta

A nona fase da Operação Unha e Carne cumpriu quatro mandados de busca e apreensão na Barra da Tijuca. A PF aponta indícios de uma rede patrimonial sofisticada: imóveis de alto padrão, aeronaves executivas, veículos de luxo e empresas registradas em nomes de familiares, colaboradores e terceiros.

Márcio Poncio já havia sido preso preventivamente na quinta fase, em julho, convertendo-se depois para prisão domiciliar por decisão do STF. A nova etapa nasceu da análise do celular dele, que revelou endereços, estruturas societárias e ativos até então ocultos.

Conexão com o jogo do bicho e o mercado ilegal

O relatório do FNCP traça ponte direta entre os negócios da família e Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. Segundo o fórum, o bicheiro exerce influência sobre o comércio ilegal de cigarros no Rio e na Baixada Fluminense.

Na nona fase, um dos alvos foi Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho de Adilsinho, identificado pela PF como operador central do esquema. A investigação apura pagamentos ligados ao jogo do bicho e à chamada “Máfia do Cigarro” a agentes públicos.

O tamanho do mercado paralelo

O documento contextualiza a investigação com números do setor: 31% dos cigarros vendidos no Brasil vêm do mercado ilegal. Em 2025, esse segmento movimentou 32 bilhões de unidades, gerando evasão estimada de R$ 8,5 bilhões apenas neste ano.

Para comparação, o setor formal de tabaco recolheu R$ 26,5 bilhões em IPI, PIS/Cofins e ICMS no mesmo período. O FNCP estima perdas acumuladas de R$ 110 bilhões nos últimos 12 anos.

Edson Vismona, presidente do fórum, assinala que a alta lucratividade e o controle territorial do comércio explicam a penetração do crime organizado nessa cadeia.

O que observar nos próximos capítulos

A convergência entre o passivo tributário consolidado, a aquisição contínua de bens de alto valor e a investigação criminal sobre ocultação de ativos cria um cenário de risco jurídico e reputacional elevado. Investidores e parceiros comerciais devem monitorar: o desfecho dos pedidos de penhora nos imóveis já arrolados; a evolução das execuções fiscais de ICMS no Rio (hoje em torno de R$ 13 milhões atualizados); e eventuais delações ou colaborações premiadas que possam surgir da análise do material apreendido na nona fase. A capacidade do grupo de sustentar operações enquanto negocia dívidas bilionárias será o termômetro real da solidez do império nos próximos trimestres.