Tecnologia

Big Techs queimam US$ 720 bi em IA e assustam até os maiores investidores

Logos das Big Techs Amazon, Microsoft, Google e Meta com gráficos de ações em queda e símbolos de data centers consumindo dinheiro
Big Techs gastam US$ 720 bi em IA e assustam investidores com fluxo de caixa negativo

Amazon, Microsoft, Google e Meta vão gastar mais de US$ 720 bilhões em data centers apenas neste ano — o triplo de dois anos atrás. Pela primeira vez, a maioria delas queima mais caixa do que gera com as operações.

O mercado reagiu com vendas agressivas nas últimas semanas. A ação do Google caiu 12% em um dia. A da Meta, 7%. A Amazon recuou 5% no after-market. O sinal vermelho acendeu: o fluxo de caixa livre ficou negativo em todas, exceto na Microsoft.

O que está por trás da farra de gastos

A corrida por capacidade computacional não tem precedentes. São bilhões em servidores, chips especializados, energia e imóveis para treinar e rodar modelos de IA generativa. O Google sozinho elevou seu capex para US$ 51 bilhões no trimestre — mais que o dobro do ano anterior — e sinalizou compromissos futuros de arrendamento acima de US$ 1 trilhão.

A Meta, pela primeira vez desde seu IPO em 2012, reportou fluxo de caixa livre negativo. A empresa planeja levantar até US$ 95 bilhões vendendo novas ações para bancar a expansão. Mark Zuckerberg disse que o objetivo é atender a “mais de 1 bilhão de pessoas” com seu agente de IA, o Muse.

A Amazon divulgou receita de US$ 201,9 bilhões (+12%), mas lucro ligeiramente menor, em US$ 20,7 bilhões. A nuvem AWS cresceu 39%, para US$ 46 bilhões — o maior ritmo em quase cinco anos. Andy Jassy projeta crescimento acima de 40% ao ano até 2028.

Microsoft nada contra a corrente — por enquanto

Diferente das rivais, a Microsoft manteve fluxo de caixa livre positivo e projeta continuar assim até meados do próximo ano. Receita de US$ 92,3 bilhões (+19%), lucro de US$ 36,6 bilhões (+32%). O Azure acelerou 48%, e a empresa avisou que o crescimento será ainda maior no trimestre atual.

Ainda assim, a companhia anunciou nesta quinta sua primeira emissão de títulos em quase uma década: US$ 25 bilhões. A CFO Amy Hood disse que a empresa tem “muitas opções” para acessar os mercados financeiros quando fizer sentido.

O clube das big techs não para por aí

Oracle e SpaceX também entraram na disputa. A SpaceX de Elon Musk captou US$ 40 bilhões em empréstimos para comprar chips de IA. Seus investimentos de capital já se aproximam de rivais muito maiores.

  • Google: US$ 51 bi em capex no trimestre; US$ 1 tri+ em compromissos futuros
  • Meta: FCF negativo inédito; US$ 95 bi planejados em emissão de ações; US$ 800 bi+ em arrendamentos futuros
  • Amazon: AWS +39% (US$ 46 bi); projeção de +40% ao ano até 2028
  • Microsoft: Azure +48%; FCF positivo; US$ 25 bi em nova emissão de títulos
  • SpaceX: US$ 40 bi em dívida para chips de IA

O indicador que ninguém ignora mais

Analistas passaram a monitorar obsessivamente o fluxo de caixa livre — o que sobra após despesas operacionais e investimentos. David Tsui, da S&P Global Ratings, resume: “Os gastos são agora, mas o retorno só vem daqui a anos. Pequenas diferenças causam muita volatilidade”.

Se o ritmo de gastos continuar superando o crescimento de receita e geração de caixa, a classificação de crédito pode sofrer pressão. Por ora, os negócios principais seguem saudáveis, mas a margem de erro encolheu.

A aposta existencial que move trilhões

“Estão em uma disputa existencial por participação de mercado”, diz Will Sommer, da Gartner. “Dispostas a assumir prejuízos para serem as principais fornecedoras de um mercado que valerá trilhões”.

O tamanho dos compromissos futuros — arrendamentos, contratos de energia, compra de chips — cria uma rigidez financeira perigosa. Se a demanda por IA esfriar ou a monetização demorar mais que o previsto, o caixa negativo vira problema estrutural.

O que observar nos próximos trimestres

Três sinais dirão se a aposta faz sentido: (1) aceleração real da receita de nuvem e IA além do crescimento orgânico; (2) estabilização ou reversão do fluxo de caixa livre negativo; (3) surgimento de produtos de IA com adoção em massa e margens altas — não apenas chatbots, mas agentes autônomos e infraestrutura como serviço. O próximo relatório de cada gigante será menos sobre lucro do trimestre e mais sobre trajetória de caixa daqui a dois anos.