O Brasil fecha 2026 com um paradoxo incômodo: a economia cresce perto de 2,7% ao ano, o desemprego segue baixo, mas a dívida bruta do governo geral saltou 10 pontos percentuais do PIB. Não houve pandemia, recessão ou choque externo que explique o rombo.
O diagnóstico é simples: o déficit primário ronda -0,5% do PIB, quando o necessário para estabilizar a dívida seria um superávit de 1,5% a 2%. Em 2023, o governo prometeu 1% de superávit para 2026. A promessa foi abandonada no meio de 2024 e a percepção de risco fiscal se deteriorou.
O custo de dirigir com pé no freio e no acelerador
Desde 2024, a política fiscal é pró-cíclica: estimula a demanda numa economia que já opera acima da capacidade. Em regime de metas de inflação, a conta recai sobre o Banco Central. Juros reais altos encarecem o serviço da dívida, que cresce mais, exigindo juros ainda maiores.
É um ciclo vicioso. O país gasta muito combustível para andar pouco. Sem ajuste, as projeções de mercado indicam dívida acima de 90% do PIB já em 2028.
O que o PLOA 2027 prevê — e por que cumprir importa
O próprio governo desenhou a rota no projeto de lei orçamentária: superávit primário de 0,5% em 2027, subindo para 1,5% em 2030. A condição é executar sem “contabilidade criativa”. A experiência internacional mostra que ajustes bem-sucedidos — os que estabilizam dívida sem travar o crescimento — combinam receita e despesa.
Não existe atalho. Cortar apenas gastos ou apenas aumentar impostos costuma falhar. O equilíbrio está no pacote misto.
Onde cortar sem tirar direitos de quem precisa
Limitar despesas não é sinônimo de reduzir proteção social. Há gordura real no orçamento que pode ser retirada sem piorar a vida dos mais pobres:
- Supersalários no serviço público — penduricalhos que driblam o teto constitucional;
- Emendas parlamentares — cresceram de forma expressiva e têm baixa qualidade alocativa;
- Bolsa Família — volume atípico de famílias unipessoais aponta distorções cadastrais;
- Previdência rural e auxílio-doença — indícios robustos de fraudes estruturais;
- Gastos tributários e regimes especiais — beneficiam sobretudo o topo da distribuição de renda.
A receita do pré-sal e a conta dos entes subnacionais
Do lado da entrada, a exploração de petróleo deve gerar receitas crescentes até o começo da década de 2030. Direcionar parte expressiva desse ganho para o resultado primário é decisão de política, não de aritmética.
Estados e municípios também precisam contribuir. Entre 1999 e 2004, eles responderam por fatia relevante do superávit primário. O mesmo padrão deveria se repetir agora.
Por que 2027 é a janela que não pode ser desperdiçada
Primeiro ano de novo mandato costuma ser o momento de menor custo político para reformas difíceis. Adiar o “freio de arrumação” significa aceitar juros altos por mais tempo, crescimento menor e uma dívida que compromete o orçamento de todos os governos seguintes.
Não se trata de austeridade pela austeridade. É a condição para que o país cresça mais, com inflação comportada, juros reais menores e espaço fiscal para as políticas sociais que de fato importam.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três sinais nos próximos trimestres: (1) se o governo envia ao Congresso medidas concretas de contenção de despesa ainda no primeiro semestre; (2) se a tramitação das propostas de revisão de benefícios tributários avança sem desidratação; (3) se estados e municípios sinalizam cooperação em pacto federativo. A combinação desses três vetores dirá se 2027 será o ano da arrumação — ou o ano em que a conta ficou para depois.
